As saudades são como as surpresas, vêm de onde menos se espera

Dizer que só damos valor às coisas quando as perdemos é cliché e os clichés são mal vistos, porque têm vazios de personalidade.
Mas o que são os clichés se não uma constante transmissão de experiência (como diria o professor de Discurso)?
Se há uma semana atrás me dissessem que ia ter saudades do que quer que fosse daquela faculdade, eu não acreditava.
Entretanto mudei de ideias.
Lembrei-me que não temos encontro marcado, senti a ameaça do nunca mais e apercebi-me que há pelo menos uma coisa daquela faculdade de que vou ter saudades...
Porque enquanto as outras pessoas já desistiram de ler o post na parte da transmissão de experiência, vocês perceberam e continuaram. Aliás, só vocês conseguem ver o livro com janelas de vidro e o pássaro de asas abertas à entrada da faculdade.
E se eu disser que também lá temos um galo, de carne e penas, vocês confirmam que é verdade.
Só nós conhecemos o espírito árduo de estudo que escoa pela faculdade, porque estivemos lá às 8 da manhã e vimos os despojos desse culto intenso ao intelecto: os copos de cerveja vazios, dispostos em fileira até a Torre, tal qual tapete vermelho. Porque aprendemos par coeur as escadas do Cenoura do Rio e os degraus do Mercado da Ribeira!
Tão pouco me parece, que haja muito mais gente, mesmo estudantes de comunicação ou jornalismo, a dominar a técnica altamente elaborada de escerever notícias para televisão numa folha A4 dividida em duas colunas! Ou a aprender a construir sites em html no caderno!
Se eu falar em sistémica voces dizem que a torradeira é mais estúpida que o termostato e se eu disser semiótica voces riem, e continuam a rir. Só nós sabemos que vivemos num aquário. Que é preciso levantar dinheiro antes de ir para a faculdade e ter cuidado com as torneiras revoltadas das casas de banho sem papel, e às vezes sem porta também.
Será possível transmitir a plenitude do ridículo que são as fichas de leitura dos livros que não temos de ler?
Mais ninguém das minhas relações sabe quem é o Heidegger ou o Benjamin, como ninguém sabe que o perigo não está na técnica mas na sua essência! uuuuuuuh! E o Habermas e o seu espaço público? Na melhor das hipóteses podem pensar que é o novo apresentador de um programa da RTP2.
Com quem é que eu vou falar sobre o panóptico?
E quem é que vai entender a "evenemencialidade" da coisa, que tão depressa vemos um clip do Eminem, como um documentário sobre o Jacques Brell, ou aquela visita inesquecivel ao Louvre às 8 da manhã!
Mais ninguém sentiu na pele uma Babufobia!
Só nós partilhamos esse orgulho mútuo por sermos alunos (privilegiados) de uma "faculdade das celebridades" onde temos professores famosos, desde deputados, pivots, jornalistas conceituados, comentadores, realizadores premiados e até o polícia que anda atrás da estrelinha!
Se eu falar em Cascais, vocês não pensam na última paragem do comboio da Linha, e se eu falar em árvores semânticas voces entendem a lógica.
Na verdade, é todo um "mise en abyme" de estórias, de momentos, de pormenores (de dialécticas!)... que sem vocês não fazem sentido.
Se eu começar a cantar "É orgia é bacanal...", as pessoas na rua vão mudar de passeio e pensar que sou maluquinha, mas vocês vão juntar-se a mim entoando "É comuni é comunicação Social". (E no fim não vão pedir para explicar porque é que cantamos assim se o nome do curso é Ciências da Comunicação).

Então, cliché ou não, eu vou ter saudades de CC, porque CC somos nós...

Comentários

Anónimo disse…
Adorei o teu texto. Emocionaste-me... e fizeste-me rir. Há coisas que nos ligam para sempre. Mesmo que nos tenham pareciso inúteis por momentos.

Boa viagem, aproveita a experiência única. Quando voltares tenho um jantar de pijama prometido.. não me esqueci!
Um beijinho muito grande.
Joana
Lolly disse…
CC é um mundo à parte... E nesse mundo existem pessoas à parte, únicas, que guardarei para sempre no meu coração: como tu :) Beijos enormes pa ti ragazza****
Fátima disse…
=') é verdade, é todo um menancial de emoções e descobertas que se acumulam em nós e nos tornam diferentes pela maneira como vemos o mundo, o horizonte que se amplia em coisas estranhas que só nós entendemos!
não tive tempo para te desejar boa viagem, visto que pouco tenho tido internet e esta semana dá cabo de mim! ainda me falta trabalho de história do cinema, anhálise ... enfim, tu sabes, mesmo não sendo da mesma variante que eu.
vou reler este texto e possivelmente também daqui a 3 ou 4 anos!
beijinho, Fátima ;P
Anónimo disse…
na na na amiguinha... o ké certo é keu, n sei pk, tive k me relacionar cm esses totos do heidegger e do benjamin... pk pa desenhar preciso saber o keke as pessoas k batem cm a cabeça nas paredes pensam...
Anónimo disse…
Nos também temos muitas saudades tuas. Sentimos a tua falta. A FCSH sem Deus não tem o mesmo encanto.
uikebom disse…
Esta caneta é tua?

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