Arrivederci


Início e fim. As pontas do ciclo da vida e de todos os semi-ciclos que o compõem, desde o início de um bocejo até o lábio superior se voltar a encontrar com o debaixo, e desde a sua separação até ao fim de um beijo.
Desde sempre e até sempre, porque sempre é a única coisa que escapa ao começo sem nunca deslizar no fim.
E naquela semana cruzaram-se as duas pontas num laço, comigo a começar as aulas da faculdade, e com os belgas a acabarem os exames para o regresso a casa.

Algo estranho se passa com as faculdades de Ciências Humanas e Sociais, ou Filosofia e Letras que é a correspondente aqui em Itália. Seja como for, se na Avenida de Berna temos as urgências do Hospital Curry e Cabral mesmo ali nas traseiras do quintal, a Faculdade degli Studi di Siena não faz por menos, e tem o departamento de CC instalado no Hospital Psiquiátrico.
No meu primeiro dia de aulas, altura em que nem fazia a mais pálida ideia de onde era a minha faculdade, as coisas começaram a correr bem, tão bem que parecia suspeito…
Encontrei a faculdade rapidamente e as informações logo à entrada indicaram-me o caminho para a “Sala cinema” onde se desenrolaria a aula de Teoria e Técnica da Linguagem Cinematográfica (TTLC). Apesar das senhoras das informações me terem dito que a sala era noutro “Palazzo”, o que me deixou ligeiramente assustada, tratava-se apenas de subir e descer meia dúzia de escadas e pronto, lá estava ela, e o outro Palazzo que cá para mim era o mesmo mas não vamos contrariar esta gente. (Eles obrigam as avós, senhoras de idade, a fazerem corridas com pedaços de terra na mão, para decidir de que contrada vão ser os netos).
Continuando, a sala Cinema, não fica a dever ao nome: as cadeiras com estofes alinhadas como no cinema, o ecran gigante como no cinema, as luzes apagadas como no cinema, e filmes de Godard e de Hitchcok como no cinema, de há 50 anos atrás, mas mesmo assim, como no cinema. Só faltam mesmo as pipocas, talvez ainda proponha a ideia ao professor. E se a hora da sessão se pudesse mudar, então seria perfeito. Convenhamos que nenhum ambiente cinematográfico pode resistir quando encarado às 9 da manhã (no escuro, como no cinema…).
Depois de TTLC seguia-se Teoria e Técnica da Promoção de Imagem (TTPI), esta sim num outro edifício, o tal que é dentro do Hospital Psiquiátrico. Não admira, 5 minutos após ter entrado no dito edifício que alberga o departamento de CC, já me vinham as lágrimas aos olhos de tamanha frustração, assolapadas por um pânico de estar perdida na faculdade. Uma faculdade sinuosa, enorme e deserta, como nos filmes de terror! As plantas na parede indicam caminhos inexistentes; pelos corredores existem salas fantasma sem qualquer mobília e ainda em acabamentos; as portas abrem-se e depois fecham-se com força atrás de nós e não se voltam a abrir, deixando-nos encurralados com as escadas que temos pela frennte. Porque nos elevadores ainda é pior! Carrega-se no 3º andar e vai-se parar ao 1º, experimenta-se o 6º e as portas abrem-se para um beco com um aspirador amarelo e um par de vassouras, no 5º andar o mesmo aspirador, e no 4º, outra vez o aspirador! Saí na primeira paragem sem aspirador, que já nem me lembro qual foi. Quando finalmente consegui chegar à sala 468, onde segundo as senhoras das informações, anteriormente mencionadas, seria leccionada a aula de TTPI, estavam vários alunos à espera…para ter Historia Medieval!
De volta ao estado deambulatório interpelei as primeiras almas com que me deparei e felizmente aqui em Itália há sempre rapazes simpáticos, dispostos a carregar-nos as malas e a fazerem de guias pelas faculdades sombrias.
Afinal havia um senhor no andar de CC, que é um andar indeciso entre o 3º e o 4º a contar pelas escadas (porque já sabemos que com o elevador não se pode contar), que dava informações e que me informou então que TTPI não era ás quintas-feiras.
Eu sabia que o dia tinha começado demasiado perfeito!
E foi assim o meu primeiro dia de aulas, o começo da minha jornada Erasmus versão académica.
Ao mesmo tempo, Bert, Micas, Marica e Julie faziam as malas, despediam-se das pessoas e olhavam tudo e todos com aquele olhar triste de quem vai sem querer, de quem vai sem esquecer.
Apesar de os conhecer há pouco tempo, também eu me arrepiei num desejo de que eles ficassem mais um dia, e mais outro, e fossem ficando. Sobretudo o Bert, que é de certeza das melhores pessoas que por aqui passou, extremamente simpático e super sensível, daqueles rapazes como já são se fazem (pelo menos heterossexuais não). E ainda por cima ofereceu-me duas caixas de chocolate belga! Como é que se pode não gostar dele?
Reunimo-nos todos à noite ao som do piano no Tea Room (não posso deixar de manifestar o meu desalento perante a meia fatia de bolo de chocolate que me serviram apesar de eu ter pago um fatia inteira) mas ninguém disse adeus. Falou-se em ir à Bélgica, em os belgas voltarem para nos visitar, em encontrarmo-nos todos daqui a 5 anos para o Palio em Siena, alguns já com filhos quem sabe! Fizeram-se apostas sobre os primeiros a casar e sentiu-se aquela intensidade das relações humanas, sem tempo nem medida, que não gosta de despedidas.
Por isso, mais uma vez, ninguém disse adeus.
Sorrisos, abraços e… “Arrivederci”.

Legenda: à esq. Eu e Micas, à dta eu e Bert (Mr. Erasmus), em cima eu e Julie Marie Madeleine Cristine (sim é uma pessoa só, sim as minhas reclamações sobre Alexandra Marina ser demasiado extenso deixaram de fazer sentido).

Comentários

Rita disse…
Agora k falas nele, lembrei-me: então n eh k encontramos o Bert no comboio pra Pisa?? segundo a conversa dele ao telefone ia buscar um amigo ao aeroporto... eu sei k soh vimos fotos mas aposto aki o meu portatil cm era ele. e foi simpatico! a carla chamou-o pra pgntar se tavamos no comboio certo e ele jah ia todo lançado ajudar cas malas... tivemos pra dizer k eramos as amigas portuguesas da alexandra mas era um bkado mau, a namorada tinha cara de má. pronto, se voltares a falar c ele logo lhe pgntas se ele foi a Pisa buscar um amigo e se encontrou 4 jeitosas pelo caminho..
carla disse…
A tua forma de escrever é espectacular...sério Xalandra :D As pessoas emocionam-se e depois ficam sensíveis... ou dá para rir ou para baixar os cantos da boca!
É bom!
uikebom disse…
Deus porque me abandonaste?

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