La casa di Giulietta

Em todo o mundo existem adolescentes em crise. Mas uma adolescente em crise em Siena, que decida fugir de casa, vai ver a sua vida extremamente dificultada com o carregar das bagagens pelas encostas em jeito de terramoto, da cidade-castelo. Esta era a ideia que corria pelos meus pensamentos, ainda adormecidos, enquanto eu e a Vanessa levávamos as malas, abrindo o dia de Siena às 6.30 da manhã.
A viagem seria longa, Verona-Veneza-Pádova em 3 dias e duas noites. Mas iria valer a pena o esforço.
A partida marcada para as 7 só arrancou já perto das 8. Creio que tenha sido para nos ambientarmos desde cedo (e digo cedo literalmente) aos atrasos que se viriam a revelar uma constante da minha primeira grande viagem em Itália!
A acção começa em Verona, primeira paragem da nossa “gita” de Carnaval (porque aqui o Carnaval é o mês inteiro). Para quem não sabe Verona é o pano de fundo daquela tal peça, daquele autor que foi, sim, acho que é isso…
Então, depois de almoçarmos, de vermos a arena e o Castelvechio, de comermos um gelado e de eu comprar mais um snow globe para a minha colecção, então, e só depois de tudo isto, porque uma pessoa tem de ter as suas prioridades bem definidas, achámos por bem ir dar uma vista de olhos à casa da Giulietta. Entenda-se, a famosa mama da Giulietta e a famosa varanda de onde ela se debruçava para escutar os versos do seu Romeu.
Não deixa de ser engraçado como a senhora, que não tendo existido se não nas salas de teatro, tenha mais posses do que muitos daqueles que habitam o verdadeiro palco, que é o palco da vida. Porque a Giulietta tem uma estátua (com uma mama de fora apalpada diariamente por centenas de turistas, mas mesmo assim, uma estátua em homenagem à sua pessoa, que é no fundo uma não pessoa). Para além disso, tem uma casa e uma varanda só para ela, a privacidade é pouca, é verdade, mas já é melhor que nada! E por fim, a Giulietta, que nem sequer chegou a nascer, tem uma tumba, que tal como a casa, vem assinalada nos mapas de Verona para turistas. (Aqui, há que constatar um certo sexsimo veronense, pois sobre Romeu não se fala, nem aparece nada dele em mapa nenhum, até aparece um Museu Egípcio qualquer, mas do Romeu nem casa, nem tumba, nem sinal).
Mais uma vez tivemos de rever as nossas prioridades. Estas redefinidas, não chegámos a ver a tumba propriamente dita da Juju (depois de lhe apalparmos a mama já temos uma certa intimidade com ela), nem a subir à varanda, porque eram coisas custosas e o mais prioritário era comprar bebidas para a noite que se avizinhava!
No entanto, na parede do arco da entrada da casa da Juju, que se encontra revestida de um colorido de chiclets mastigadas fixando notas de amor, deixámos também a nossa marca! ;p
Sobre o desfile de Carnaval de Verona, não há grandes apontamentos, há alguns carros curiosos por serem algo incoerentes: na parte da frente um rapper negro de t-shirt e calções largos cantando, na parte superior um casal de idade avançada trajando roupas de rei e de rainha. Nos lados, letras garrafais assinalavam a presença do patrocínio de uma marca de tortelloni. O que mais se vê neste desfile são confetis, que aliás se continuam a ver nos dias que se seguem ao desfile, pois os papelinhos às cores instalam-se nos nossos bolsos, cabelos, roupa interior e ainda hoje devo ter alguns nas botas!
Nesta noite fizemos história! Éramos 5 raparigas para uma casa de banho e menos de uma hora. E como que por magia, conseguimos todas tomar banho, lavar cabelos, secar cabelos, tirar confetis, vestir, calçar e maquilhar dentro do tempo limite!
Na verdade ainda tivemos de ficar à espera, à espera e à espera para ir jantar, porque das nove horas se fizeram 10.30 e nem se pode dizer que tenha valido a pena a espera. Mas a “espera” da noite ainda estava por vir. Ao retornar do jantar e antes de ir para a discoteca, fizemos escala no hotel. Como supostamente seriam apenas 10 minutos, eu a Vanessa e mais duas espanholas, a Cristina e a Isabel, que dão assim uns ares de pop stars, mas mais simpáticas, resolvemos permanecer no autocarro.
Toa a gente saiu menos nós. O motorista apagou as luzes e fechou as portas. Passados os primeiros 10 minutos apercebemo-nos que estávamos sozinhas e trancadas no escuro, e que assim iríamos continuar por algum tempo. Passados 20 minutos já estávamos chateadas. Passada meia hora a revolta invadiu-nos quando começámos a ver pela janela toda a gente a rir e a conversar lá fora, e o presidente do grupo Erasmus a fumar tranquilamente na sua varanda, tal qual Giulietta apaixonada. Passada meia hora mais 5 minutos tirámos uma fotografia as 4 juntas, para recordar a noite que passámos no autocarro. Passados 45 minutos nada de novo, apenas gesticulávamos e batíamos nos vidros, e a Vanessa simulava um ataque cardíaco. Nem assim se verificou qualquer passo na direcção do autocarro, e o presidente do grupo erasmus e restantes com pinchas continuavam a beber, a fumar e a olhar-se ao espelho, sem pressas, afinal, 10 minutos ou 10 +10 +10 +10+10 que diferença faz? São sempre 10 minutos….
Para acabar a noite em beleza, a pseudo-discoteca para onde nos levaram não agradou. Mas vendo as coisas pelo lado positivo, não é que a noite tenha sido má, foi mesmo ruim, e desse modo, a noite seguinte seria melhor de certeza, porque não era impossível correr pior!
Retomando em conclusão o tema das adolescentes em crise que tentam fugir de casa em Siena. Muito provavelmente, é nesta questão que reside o motivo para o desfecho trágico da peça: a Juju, que não tinha tempo nem paciência para pensar nesses detalhes, optou por uma fuga que dispensava malas e assim ficou logo com o problema do transporte de bagagens resolvido!

P.S – “Si sia di Portogallo si alse si alse,
si sia di Portigallo si alse si alse,
bevilo bevilo bevilo,
bevilo bevilo bevilo!!!“

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