San Valentino


L’amore, l’amore!
O amor é tão importante como as árvores e os não fumadores, por isso, tal como eles, também tem um dia próprio.
As montras começam a encher-se de corações encarnados praticamente um mês antes do dia 14 de Fevereiro, e todos os tipos de produtos se desenvolvem num “mise en abîme” de edições especiais para o dia dos namorados.
Mas é exactamente quando parece que o sistema capitalista engoliu os versos mais bonitos do sentimento humano, que as coisas mágicas acontecem…

Saí da aula de italiano no intervalo e segui Siena a fora, perguntando pelo Restaurante Chiacherare, tal como os jornalistas na baixa de Lisboa, a recolher informações para as sondagens. Depois dos primeiros 3 inquiridos não serem de Siena, a esperança começou a desvanecer, minguando a cada inquérito que passava. Foi então que achei ter encontrado o homem da minha vida: loiro, alto, de olhos azuis, aparentemente italiano, mas tenho as minhas dúvidas, e com as palavras que eu mais queria ouvir: “ah non è Chiacherare è la Chiachera! Si lo so!”.
Depois de me explicar o caminho, que era pela Via della Sapienza a cortar numa inclinação à sinistra, virou as costas e seguiu em frente, o que me faz pensar que se calhar, então, afinal… não era o homem da minha vida!
Fiz a reserva no restaurante para as 9.30 e voltei para casa voando, que a chegada tão esperada estava prevista para qualquer momento!
Ainda fui interpolada pelo Dani (o macho latino aqui da zona erasmus), que me veio pedir perdono por me ter “molestado” na noite da Esenza (a que tem stripers e bolinhas de sabão). E ainda apareceu um muratore (homem das obras) à procura de manchas de humidade cá em casa, porque aparentemente o senhorio mandou-o vir cá pintar as manchas, que por sua vez, também aparentemente, não existem.
Eram quase 6 horas e já começava a ficar preocupada… eis se não quando, o telemóvel tocou… e como que por magia, as 4 apareceram na porta de baixo (enquanto o muratore ia trazendo e levando sacos de areia).
Uma a uma foram saindo do táxi: Rita, Carla, Tania, e mais uma Tania! Ainda nem fazia duas semanas que tinha chegado a Siena, e as minhas amigas de sempre e para sempre, já estavam aqui, no número 6 da Via Casato di Sopra!
Isto sim, é amor!
É amor, porque passaram a noite em claro, no aeroporto de Pisa, correndo o risco permanente de serem expulsas a qualquer momento, já que uma voz intermitente não cessava de repetir que era proibido pernoitar no recinto em questão. Mas como a gente de Faro tem raça, lá foi a Tania R. ressonar para cima das mesas de um dos cafés, enquanto as outras se acostaram onde puderam.
É amor, porque dependemos umas das outras, de maneira que como eu não as avisei que tinham de picar os bilhetes do autocarro e do comboio elas não o fizeram, e tiveram por isso alguns problemas fiscais, dos quais no entanto conseguiram sair sem danos económicos (isto em Faro só há o minibus e elas andam de carro, é compreensível…).
É amor, porque eu dividi o meu quarto onde, anteriormente conseguia dar 3 passos e agora, co-habitado por 5 ragazze, nem um passo se consegue dar. E mesmo nas circunstâncias mais difíceis como estas (e aquelas em que a Tania R e a Carla ressonam) continuamos amigas!
É amor porque fomos ao tal restaurante com marcação para as 9.30 e não nos chateámos. Não nos chateámos por só nos terem dado mesa às 10.30, não nos chateamos por não haver café e não nos chateámos por o vinho ser mau e também não haver coca-cola. Nem quando o empregado de mesa ficou 5 minutos para perceber que lhe estávamos a pedir Ketchup, ou melhor “Kátchúp”, respondendo por fim com pouca simpatia que “kátchúp era no McDonalds”, nem aí, ficámos chateadas! As raparigas da França, da Austrália e da Hungria, que são do meu curso de Italiano e que passaram a noite connosco, também não se chatearam.
Aliás, até ficámos todas muito contentes quando o empregado de mesa supramencionado nos trouxe a conta dizendo que tinha retirado as sobremesas (entretanto sucedera uma pequena discussão entre ele e as francesas em torno do conceito de torta, mas uma questão tratada com grande seriedade, de tal modo que até envolveu um dicionário italiano-francês e vice-versa!). Por isso, todas esboçámos sorrisos pensando que a vitória da discussão estava do nosso lado, mas foi um sentimento que desapareceu tão rapidamente como veio, porque ele acrescentou de imediato que as sobremesas não estavam na conta por engano dele e que tínhamos que pagar mais 10 euros do que o preço que lá estava. O jantar acabou por não ser caro e desta vez achámos que não valia a pena pedir o livro de reclamações. Afinal, quem é que se pode chatear quando até tivemos direito a música ao vivo, muito ao jeito dos Mariaci mas em vez da La Bamba, o hino do Palio claro está!!!
E é amor, porque a noite acabou no Barone Rosso, como também não podia deixar de ser, e eu partilhei com elas várias das pessoas que agora fazem parte da minha vida. E quando passou a “Gasolina” recordámos as nossas noites sem fim no Milénio, e foi como se estivéssemos em casa, juntas como sempre, a ver os Morangos com Açucar.
Não houve cartões, nem flores, nem chocolates, nem prendas, mas Faro chegou a Siena e foi um dia dos namorados em Grande!
Porque o amor não está à venda nas montras, está nas pessoas e é de graça…

Comentários

Lolly disse…
Adorei a conclusão! Um beijinho cheio de saudades para ti, de graça ;)******

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