É a loucura!


Para muita gente andar de avião é uma loucura. Para outros, a entrada para a 25 de Abril em hora de ponta, isso sim, é a verdadeira insanidade.
Para quantos pais e avós, a Internet não é uma grande maluquice?
Para alguns, é uma loucura faltar a uma aula, para muitos, a loucura é ir às aulas…
De qualquer modo, tornam-se mais frequentes as loucuras em situações extraordinárias, que exigem ser diferentes, que exigem que se faça algo de diferente…
Porque afinal, loucura que é loucura não pode ser banal…

Tenho dois professores loucos. São loucos todos os dias. Pelo menos em todos aqueles que tenho aulas com eles. Um, vê estados hipnóticos em todo o lado; e vê as luzes a fazerem do Otello o elo entre o céu e a terra, e também as vê ora a ligarem a personagem com o mundo, ora a desconectá-la. E quem diz as luzes diz as cores, os movimentos de câmara e tudo mais que entre num filme. À excepção das personagens e da história propriamente dita, claro está. A única parte que eu vejo, ele não vê! (Houve um filme, a preto e branco, em que eu pensei estar finalmente a partilhar dessa visão privilegiada sobre as luzes, mas afinal não estava, era apenas um tremelicar de luminosidade não intencional, devido à antiguidade do filme em questão). Ele também leva caixotes cheios de livros para nos oferecer. E diz que podemos fazer o exame quando quisermos, porque somos Erasmus.
O outro, está sempre a desconstruir todos os partidos políticos italianos, parece uma sátira teatral de Gil Vicente. Todas as conversas levam ao Berlusconi e à decadência da beleza do ensino universitário. Uma vez parou uma aula para me dizer que tivesse cuidado com o rapaz da blusa vermelha, que ele depois me ia convidar para estudar com ele. O rapaz da blusa vermelha por sua vez, interrompeo-o a meio de um raciocícinio para dizer “Prof, possiamo fare la pausa no?”. (Imagine-se alguém a dizer isto ao senhor Cascais ou ao Senhor Bragança de Miranda, a meio de uma aula de apenas duas horas e quando eles estão a partilhar connosco os seus conhecimentos mais profundos). Mas em vez de responder “Se não quer estar aqui pode sair”, como responderiam o senhor Cascais ou o senho Bragança de Miranda, o “prof” disse “Va benne”.
Benne vai o tempo aqui em Siena, sol e calor quanto baste para o dolce fare niente das tardes a “trabalhar” para o bronze na Piazza, e a comer gelados e frittelle. Mas sempre sentados, porque se não vem logo a polícia mandar-nos sentar. Parece que estar deitado a ler um livro é crime aqui em Itália. Novamente cito o Obélix, esse sábio intemporal: “Estes romanos são doidos!”.
Ao meu “compagno” (o Harry Potter) também faltam uns quantos parafusos, mas esse é um tipo de loucura indescritível. E para minha grande surpresa, viver com ele tem-se revelado bastante divertido. Escrevemos mensagens no espelho da entrada, sobre o qual ele pendurou um cachecol de Portugal em minha homenagem (não faço ideia de onde roubou o cachecol). Agora também temos pequenos panfletos sobre o cristianismo espalhados pela casa. Contou-me ele, que estava a fazer um torneio de pocker na mesa da cozinha, com a restante equipa Gryffindor, quando alguém tocou à campainha. Ele foi abrir no seu pijama xadrez e era um padre. Ele deixou o padre entrar e o padre benzeu-nos a casa toda, incluindo o Harry Potter, os Gryffindor, e os hoteis do monopólio que estavam a servir de fichas de pocker. Mas com água benta e tudo!!! Se isto não é de loucos!


Estar a viver m Itália é pois uma situação mais que extraordinária e como tal requer que se façam coisas diferentes. E não basta dividir as refeições em primo e secondo piato, com o acompanhamento separado da comida, nem puxar autoclismos que pendem do tecto. Há que deixar marcas para sempre!
Pai, mãe, mana e restante família; amigos e amigas; comunidade em geral, é com um enorme prazer que vos informo que hoje fiz uma loucura (não pai, não fiz uma tatuagem)… Furei as orelhas!!!
(Agora é favor oferecerem-me brincos)


Legenda: Espelho da entrada e caricaturas do meu “compagno”

Comentários

Neuza disse…
Aaaaaaahhh nao posso!!! =D
Agora era uma optima oportunidade de usares os velhinhos brincos que o Joao Daniel te ofereceu, se nao os tivesses dado à Sara...que pena...
:p
Anónimo disse…
o tempo na fcsh também está bom. mas sem deus...

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