Banhos de Noite


Noite: Essência feita de escuro com salpicos de luz. Espaço intermitente onde reluzem segredos do tempo. Carrossel de pirilampos. Mistérios escondidos nas fases da lua. Céu que revela tatuagem de profecia. Surpresas cadentes.
Magia!

E por tudo isto, a noite é o momento perfeito para ir numa excursão até às termas! Biquinis postos, calçado veraneio, malas com entusiasmo e toalhas de fora. Três Ibéricas a caminho da paragem do autocarro. O vento não se fazia sentir. O frio é psicológico. Não estava mais ninguém na paragem. “Ai que bom que era se encontrássemos uma festa de modelos” dizia a Maria (nitidamente a sonhadora deste trio). Não foram encontrados quaisquer vestígios de modelos mas pelo menos chegaram mais pessoas para apanhar o autocarro. Para surpresa geral, essas pessoas estavam dentro da linha da normalidade! Normais até de mais, diga-se de passagem. Não só éramos as únicas que não falavam em italiano como também éramos as únicas vestidas como quem vai para a praia ou para um pic-nic no campo.
O cheiro a enxofre (ou algo parecido), anuncia a todos a chegada! Mas a visão da festa faz esquecer odores menos agradáveis e até ao fim da noite ninguém se lembrou deles.
As termas eram como piscinas de um hotel, com pequenas cascatas e pontes pelo meio. E bolhinhas de hidromassagem! Em vez da tradicional água fria com cloro, água aquecida com propriedades naturais.
Havia uma pista de dança à beira da piscina. E ao contrário da música das pistas de dança que costumamos frequentar, esta dava mesmo para dançar!!!
Na sala do buffet comia-se com classe e as pessoas estavam bem vestidas. E depois estávamos nós, sem maquilhagem e com sacolas de praia. Nada que nos tirasse o direito de comer e beber como qualquer pessoa bem arranjada! E até nos convidaram para sentar numa mesa (primeira fase de um plano que consistia em trocar números de telefone connosco mas que não foi bem sucedido).
Os “polvos”, no seu habitat natural, vinham com a maré. Como de resto nós já estamos habituadas, navegantes que somos, com vasta experiência nas rotas do engate italiano. E estes até podiam ser chatos, mas pelo menos eram caras novas!
Nadámos felizes e contentes sob o luar e as estrelas. Mergulhámos de cabeça e dançámos dentro de água como sereias paraplégicas. Tudo estava perfeito até nos aperceber-mos que a toalha da Maria havia desaparecido! Estava a máquina fotográfica, a minha toalha e a toalha da Júlia, as nossas roupas e todo o nosso calçado veraneio. Mas faltava a toalha amarela da Maria! Como fora da piscina o frio não era, de todo, psicológico, resolvemos pensar numa solução dentro de água. Uns rapazes normais que tínhamos conhecido organizaram um grupo de busca. E nós fomos nadando à volta da piscina perguntando se alguém havia visto a toalha desaparecida. Havia uns rapazes a dar mergulhos de cabeça e a Maria, desesperada, ergueu o braço de dentro de água e pôs-se a gritar “Un’attimo!Un’attimo!”. Vá-se lá saber porquê, os jovens não pararam em pleno salto para ela lhes perguntar pela toalha amarela, e em vez disso, voaram por cima das nossas cabeças e do braço da pequena Maria. A situação era crítica. Mas eu não conseguia parar de rir. E de repente avistei-a! Amarela com uma estrelinha de lado, enrolada à cintura de um corpo com pêlos no peito. “Olha Maria, ali vai a tua toalha!!! Oh! Oh! Essa toalha não é tua!” E no mesmo segundo, corremos para a operação de resgate! O ladrão ainda apresentou alguma resistência, mas bêbedo como estava, se resistisse muito mais, afogávamo-lo, sem dificuldade, nas bolhinhas da hidromassagem. E como até já tínhamos conhecido o indivíduo no princípio da noite, não havia razão para cerimónia e o afogamento seria pois, totalmente lícito.
Resolvido, de forma pacífica, o mistério do rapto da toalha amarela, regressámos à festa. Perdemos a noção do tempo, o que por sua vez nos fez perder o primeiro autocarro. Dado que só havia 2, ficámos muito atentas para não perder o último, o que nos causaria alguns problemas de logística. A Júlia dizia que seria uma aventura! Mas a Júlia também dizia que estava “super-bien” e no entanto apresentava sérias dificuldades em manter os olhos abertos. Bastante contrariadas, atravessámos a pista de dança rodopiando em direcção à saída, e sacudindo os nossos cabelos molhados e suaves, como o esfregão da loiça.
No autocarro houve um duelo de hinos de futebol que eu e a Maria tentámos travar com a “Cucaracha” e a “Macarena”, mas as pobrezitas não tiveram força suficiente!
Queríamos ter ficado mais. Teríamos ficado toda a noite! (Que é como quem diz até às 3, porque depois fechava).

Noites, enfim…estrelas e luar. Umas sem dormir e outras assim, que até nos fazem sonhar…

Comentários

Revol disse…
Muito bom...sim sra, belas fotos
Beijinhos

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