Antevisão do Pálio desaconselhada a cardíacos (ou claustrofóbicos)!


Os portões improvisados começaram a fechar-se lentamente, um de cada vez. A partir do momento em que cerraram o último, lá estávamos nós, encarcerados na Piazza do Campo, no meio de milhares de pessoas, até que acabassem os treinos dos cavalos. Primeiro tinham dito que seria até às 10 da noite. Mas esse limite era somente para o trânsito automóvel. Os peões poderiam mover-se alegremente quando os cavalinhos já tivessem sido todos recolhidos.
Um sentimento claustrofobico invade-nos o pensamento: e se acontece alguma coisa??? Este seria o lugar perfeito para pôr uma bomba, comentámos. E de repente PUM! Escutamos 1 dispáro e saltamos assustadas, mas afinal é parte do processo.
Também foi parte do processo irmo-nos sentar nas bancadas de madeira, todos contentes que tínhamos arranjado tão bons lugares, e depois sermos expulsos por dois homens “abbasttazza” rechonchudos. Aparentemente estávamos sentados em lugares reservados para as pessoas das contradas, daquelas que têm bilhete de sócio ou algo assim…
Eu bem que achei estranho estar tanta gente em pé no meio da Piazza com tantos lugares livres nas bancadas… Mistério resolvido, fomos nós também para o meio do povão!
Rapidamente se encheram os lugares que restavam vazios, e não havia varanda ou janela que não estivesse a abarrotar de gente. Lá estava Siena em peso, dividida por contradas, para ver uma espécie de pré-Palio. Numa dessas bancadas de madeira para sócios, avistei dois dos tocadores de tambor que costumam estar a tocar em baixo da minha varanda, e com os quais tenho aquelas conversas maravilhosas.
Os cavalos começaram a sair de dentro do Palazzo, montados pelos jokeys das respectivas contradas, os quais vestiam uniformes simplesmente horríficos! Houve uns gritinhos da multidão mas nada de arrebatador.
Andava lá um desgraçado, que tinha o fato mais feio de todos, rosa pêssego ranhoso, que tinha o pior cavalo, um que não sabia a andar a direito, e que deve ter aprendido a montar num curso por Internet. A minha irmã anda a cavalo melhor que ele!
Depois havia um de Portugal, ou pelo menos com as cores da selecção, e eu estava por esse e pelo da contrada da onda (minha ex-contrada), porque ainda não descobri qual é a minha actual contrada.
Fizeram uma rodinha e puseram-se a andar às voltas durante algum tempo. Depois houve minutos de silêncio “It’s for some dead horse or something” disse a Alana. Depois houve disparos e correram à volta da Piazza mas devagar. Depois houve alguém que falou e nós não percebemos. E depois, sem disparos nem nada, desataram a correr desenfreados e quando dei por mim só vi 3 cavalos descontrolados, cavalgando livremente sem os respectivos jokeys! De onde estávamos não foi possível ver o que aconteceu mas deu para perceber que tinham caído 3 homens ao chão. Era o delírio!!! A emoção ao rubro!!! Um dos cavalos a embater contra as bancadas onde estavam as pessoas! Um dos homens a ser levado pela ambulância completamente inconsciente! Os “sócios” com as mãos na cabeça a saltar desesperados para dentro do recinto! E os outros continuavam a correr, como se nada fosse…
Chamou-nos a atenção o facto de vários homens de diferentes contradas terem saltado com tanta pujança e tirem começado a correr desenfreadamente em direcção a um mesmo ponto. Mas pensámos que fosse para ajudar os feridos….
Não foi. Na verdade, segundo informações seguras do meu housemate Lúcio, estavam todos a tentar apanhar o homem que deu a partida da corrida ( corrida treino). Sucede que o senhor, cuja única função era levantar um lencinho, na altura certa, para dar a partida, conseguiu enganar-se! Os cavalos confundiram-se e foram uns contra os outros. E aquilo que primeiramente o Lúcio pensou que fosse uma luta entre contradas era na verdade uma união de todas as contardas para atacar o dito cujo que se enganou. Chamavam-lhe todos os nomes possíveis e imaginários, e os do lado de fora do portão estavam a tentar arromba-lo para vir ajudar no massacre. “Deve murire!!!” gritavam revoltados! E de facto, a policia de choque teve de escolta-lo para que conseguisse sair vivo dali para fora.
Agora, acho que a mulher se vai divorciar dele e espero que não tenha filhos se não nunca mais vãos ser convidados par festas de anos. Seguramente vai ser banido da sua contrada, e no fim acabará por ser desterrado. Matá-lo já me parecia um pouco extremo de mais, assim parece-me justo! Afinal, o senhor enganou-se a dar a partida nos treinos para a corrida do Palio!!!

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