Capuchinho Vermelho


Noutros tempos a minha pessoa dava pela graça de Ale, ou puxando mais aos nacionalismos, “La portu”. Aqui em São Paulo porém, estou crente de que para os meus companheiros de autocarro (fretado porque, relembre-se, não estou autorizada a andar de transportes públicos) e para os camaradas da empresa, serei eternamente a “Capuchinho Vermelho”.

Ele é vermelho e tem pelinho. Aquece no Inverno e ainda aquece mais no Verão. Por isso é que eu só o uso no Inverno. Apesar de para vocês ser Verão. E quanto aos pelinhos, algo de estranho se passa com eles que agora estão sempre a picar-me nos olhos!
Foi com o meu capucho vermelho e com pelinho que fui para o meu primeiro dia de trabalho. Chovia. O prédio é grande. Medidas de segurança exigem passes de livre acesso para activar os dispositivos rotativos entalados à entrada dos elevadores. Por esta altura eu já devia ter o meu passe definitivo. O porteiro tirou-me uma fotografia uma vez para esse feito. Mas alega sempre tê-la apagado “sem querer” e “outro dia” logo fazemos outra (a foto deve ter ficado lindíssima por sinal. Menos mal que foi eliminada).
Foi com o capucho nos braços que expliquei as minhas áreas de formação e que recebi a minha primeira tarefa laboral! Convencer uma empresa norte-americana de canos, válvulas e sistemas de incêndio, de que a empresa, que nunca trabalhou com nada parecido, tinha imensa experiência na área e era por isso a escolha ideal! Tarefa simples para quem está por dentro da indústria dos canos e está bem familiarizado com a história e “carreira” da empresa onde trabalha, detendo amplo conhecimento dos seus pontos fortes. Infelizmente, a minha pessoa não era o caso.
Mas com uns sites aqui e umas apresentações tiradas do baú ali, a coisa saiu!
E também eu saí do meu primeiro dia com o capucho na cabeça, e assim voltei no dia a seguir. Ele, acompanhou-me pelas longas jornadas em que eu me punha a pensar o que gostaria de ouvir uma norte-americana directora de marketing de uma empresa de canos. Estava lá quando eu me indaguei se o meu colega de trabalho seria gay. E juntos e em simultâneo, descobrimos a resposta! É uma coisa assumida. O namorado até o vai lá visitar, apesar de ele negar que são namorados. Contrariamente à maioria dos gays, que têm tendência a gostar mais dos meus namorados e menos de mim, com o Gu dou-me super bem! E aprendo cosias novas com ele e tudo! Ensinou-me que não se diz favela porque é feio! Diz-se “fávi” que é mais chique. E já mais o escutarão a perguntar a alguém se trouxe a marmita, porque essa então é hedionda! A frase será “Pessoa x, cê trouxe a sua mita?”. Ele também tem um nome diferente à noite, mas eu agora não me lembro como é.
Foi com o meu capucho que fiz os meus primeiros amigos na grande cidade, e até agora os únicos. Trabalham comigo, e olham para mim com muita atenção quando eu falo porque ainda não se habituaram ao sotaque. Com a Marina já fiz um intercâmbio cultural de sabores e palavras. Ela apresentou-me à bananinha: uma substância de consistência mole e aspecto duvidoso. E eu tive que lhe falar sobre a essência dos rebuçados na sua relação diferencial com os sugos, quando ela me perguntou o que eram “rabuçados” alegando ainda que sugos eram os molhos da massa.
A Camila vai falando e vai perguntando se as palavras existem em Portugal, na língua que eu falo… e eu vou dizendo que sim, que também temos cãibras e coisas parecidas.
Há 2 Sérgios. O que não é o chefe, é o que tinha no email e na caneca da cozinha o nome Soraia. O que me parece 1 pouco suspeito…
E o meu capucho conhece-os a todos, e aos de quem eu ainda não falei mas oportunidade não faltará. Tal como aconteceu comigo, também foram simpáticos com ele desde o primeiro momento. Disseram-me que o podia deixar no armário e avisam-me quando ele está caído no chão. O meu capucho presenciou as infinitas mudanças no meu computador e na minha secretária, e as minhas discussões com o interface, feitas de expressões desagradáveis em línguas várias, dado que não sei dizer “va fanculo” em binário. E Terças e Quintas de manhã, lá está ele a ouvir as minhas aulas de Espanhol com o professor argentino. (Como trabalhamos com a Colômbia a empresa organizou aulas de espanhol. Apesar não estar segura quanto à eficácia de aprender como se pede tapas num restaurante, para fazer acessória de imagem à Colômbia, me gustán muchissimo las clases!
E o meu capucho só não esteve presente no Sábado, quando fomos ao teatro ver o musical “My Fair Lady” em brasileiro. Mas também não sei até que ponto não teria sido demasiado chocante para ele ouvir o porfessor Higgings chamar vagabunda à Eliza…
De resto, ele sai comigo nas madrugadas frias e comigo regressa nas noites chuvosas. E agora comigo irá, a caminho de um casamento em Belo Horizonte. Não sei ao certo de quem é a boda mas desejo publicamente as maiores felicidades.
Prevê-se nova descida das temperaturas.

E por esta altura perguntam vocês, porque é que eu ando sempre com o meu capucho vermelho? Será amor ou necessidade? Ambos. Respondo, convicta de que o amor é uma necessidade. Mas isolando o romantismo da coisa, é mesmo porque não trouxe mais casacos, porque o meu pai me disse que em S.Paulo no Inverno não faz frio e também não chove. Aliás, o meu tio aqui de S.Paulo, continua, contra todas as evidências, a dizer que em S.Paulo não chove no Inverno. E remata dizendo que são as frentes frias e que vêm da Patagónia (como manda o bom espírito brasileiro, importante é que a culpa seja da Argentina)!!!

Comentários

neuza disse…
AHAHAH Adorei o post!

Casamento em Belo Horizonte? Cheira-me que vais ouvir uma música especial... "É na sola da bota! É na palma da mão! Bota um sorriso na cara e manda embora a solidão!" hihihi

Beijos para o teu capucho vermelho* ah e já agora para ti tb :p
ruitio disse…
OLÁ ALE, ALLÔ
Sempre bem o teu astral , aproveita a pausa em belo horizonte e vai a alexland.blogspot.com
tens lá algo inacabado que continua á espera ...
Ana disse…
Oh bebe fico feliz por saber que isso ta a correr bem e que ja fizeste novos amigos! Olha eu, para meu grande espanto estava em 5º lugar na tabela de classificaçoes da minha turma de maneira que pude escolher ir fazer estagio pos Hospitais da Univ. Coimbra. Espero que estejas tao entusiasmada como eu e que o teu "Chapeuzinho vermelho" (nao é como eles dizem?) te va acompanhando essas jornadas divertidas.
Grande beijinho**

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