O Casamento em Belo Horizonte


Casamento. A palavra que desencadeia comichões, provoca alergias agudas, estimula os nervos ao cubo e dá sentido à indústria joalheira. O fenómeno que rivaliza com o moderno ajuntamento, e que tanto pode ser a causa da separação como a eterna união. Os contos de fadas valem o que valem, que é cada vez menos depois da era do Dragon Ball, do Pokémon e do Noddy (que é o pior de todos a seguir aos Telletubies). Mesmo assim, ainda há quem acredite no :
“.. e viveram felizes para sempre…”

Belo Horizonte é perto de São Paulo. É assim como ir de Faro ao Porto, com o detalhe de que as estradas brasileiras são muito mais aventureiras!!! Depois de 6/8 horas de puro rally, vê-se o Belo ao horizonte, também muito conhecido por BH!
O vento sopra forte, a chuva ameaça, e no entanto o meu pai disse-me que não fazia frio no Inverno e o meu tio insiste em dizer que não chove. Como não chove, alugaram uma tenda especial, contra a vontade da noiva, para pôr no quintal, com o objectivo de proteger contra a chuva, o recinto do casamento, o churrasco, os convidados e a banda octogésima que lá foi tocar.
Mas o casamento foi só no Sábado e até lá, muita água correu!
Quinta foi dia de ir visitar as cidades históricas à volta de BH com o pai da noiva, que se lembrou de dizer que os comboios em Portugal eram uma porcaria e quem Itália eram muito melhores. Ora eu não sou a fã nr.1 da CP mas a Trenitália não é melhor nem nas casas de banho a bordo! Até porque não me lembro sequer de ver casas de banho nos “mille” comboios que apanhei em Itália, sempre atrasados, sempre com mudanças de comboio sem rampas ou elevadores para passageiros com malas e excesso de bagagem nas respectivas malas, sempre sem espaço nos corredores paras as ditas malas, sempre com os bancos a cair de podres e sempre sem um desenho, voz off ou qualquer outro sinal relativo ao rumo do comboio. Mas como o senhor não arranjou um comboio para ir de Lisboa a Fátima, nem tão pouco para ir até à cidade do Marvão (essa metrópole de imensa procura!!!) diz que os comboios em Portugal são uma porcaria! Que só há comboios para o Porto! E logo foi dizer isto a quem passou dois anos e meio a fazer Lx-Algarve-Lx de comboio, com paragem em todas as terriolas a sul do Tejo! Assim sendo, tive que discordar educadamente do seu ponto de vista, mas ele contra-atacou revoltado! O acordo de paz foi feito ressalvando que na Alemanha é onde os comboios são melhores. Mas como aqui não tenho que estar com cerimónias aproveito para acrescentar que em Itália também não há comboios pata todo o lado. Por exmplo, não há comboios de Siena para nenhuma cidade dos Alpes Italianos, que assim como assim, sem ofensa, conseguem ser ligeiramente mais importantes que a Cidade do Marvão!
Logo a seguir o senhor iniciou teorias sobre a hipótese de uma ditadura no Brasil como têm na China e eu já o imaginava a urlar “Mao Tzé Tzung (que agora não sei se se escreve com z ou com s) para presidente!”. Desta vez abstive-me de intervir. Tomei em consideração que com aviões a cair, peixes na Presidência e o Scolari em Portugal, as pessoas têm razões para desespero e ideias radicais.
Levaram-me a uma cidade ainda mais pequena que Siena, que se chama Congonhas e é feia como a necessidade! E no monte mais alto (que no Estado de Minas gerias, cenário destes 4 dias de acção intensa, nada mais há que montanhas, e para lá delas, outras montanhas há) estava uma igreja erguida com 12 esculturas igualmente feias. No entanto famosas, por terem sido esculpidas pelo “Aleijadinho”. Um senhor preto e sem mãos, que evidentemente não ligava patavina aos testes psicotécnicos nem queria saber nada dessas coisas das áreas vocacionais, e em pleno século XVII atracou as ferramentas onde conseguiu e pôs-se (relembre-se que sem mãos) a fazer esculturas para igrejas. Tornou-se um dos artistas mais conceituados da zona e como todo o bom artista, morreu pobre e doente.
A paragem seguinte foi Ouro Preto, uma antiga capital de Minas Gerais, onde só há duas hipóteses: sempre a subir ou sempre a descer. Foi construída pelos portugueses e altamente explorada por eles, tal como toda a região, muito rica em ouro e afins, dai o nome: Minas Gerais.
Em Roma sê romano e em Ouro Preto vai ao museu dos oratórios! E lá fui eu, não por iniciativa própria, nem compartilhando do mesmo entusiasmo dos meus parceiros de viagem, ver todos os tipos e subtipos de oratórios: grandes, pequenos, médios, para donzelas, viajantes e mendigos, etc. Num dos grandes, colocado numa cena de baptismo, com bonecos grandes, o senhor dos “Comboios em Portugal são uma porcaria” exclamou de espanto com o realismo de um dos bonecos que lá estava, de branco, especado, à esquerda do boneco padre e que por acaso sucede que não era um boneco. Era eu.



Ao almoço, pedi abacaxi com coco de sobremesa, mais por curiosidade do que por fome. Aquilo veio uma fatia de queijo com uma mistela amarela. A minha prima pediu desculpa mas o pedido era abacaxi com coco. O senhor respondeu que sim e que estava ali. Então a minha prima adoptou uma postura mais directa e perguntou: “Onde está o abacaxi?” – ao que o garçon respondeu, com o indicador em direcção à mistela amarela- “Aqui”. O abacaxi estava esmigalhado em açúcar com o coco, porque a sobremesa não era da secção frutas da época mas da secção de doces (apesar de tal discriminação não aparecer evidenciada no menu, o que nos teria poupado esta triste figura).
No dia seguinte fomos ver BH logo pela manhã. Descobri que a Cow Parade também passou por lá o ano passado e que há uma rua em que o carro, de motor desligado, anda sozinho na subida e mesmo com o motor ligado, vem para trás na descida. É portanto um ponto de atracção, assombrações, macumbas e eventuais marcas alienígenas. Porém, depois de chamados os engenheiros da melhor faculdade do Estado para resolver o mistério, o fenómeno da ilusão de óptica acabou com toda as outras explicações, bem mais emocionantes na minha perspectiva. Apenas o nome, Rua do Amendoim, permanece uma incógnita.
Ao contrário das pessoas que fui conhecendo em Itália, nesta minha visita a BH, cada vez que se mencionava a minha origem, ninguém dizia Figo nem Cristiano Ronaldo. Diziam-me “Ora pois, pois” e falavam-me de Fátima. Apesar de bastante desiludia com o meu nítido desinteresse por Fátima, e de não lhes parecer razoável que morando em Lisboa eu nunca tenha ido a Fátima, a família do meu primo (família da noiva) foi toda extremamente simpática comigo. E a irmã dele é que sabe fazer caldo verde a sério! Não é cá aquela góróróba cinzenta com fios verdes afogados que nos servem nas cantinas. È um creme amarelo digno de ser repetido até mesmo por quem não gosta de caldo verde, como é o meu caso.
Nos tempos mortos andava eu agarrada ao último HP da minha vida que também já começa a aborrecer porque não anda nem desanda. No primeiro capítulo há logo uma morte e um infeliz que fica sem orelha! A pessoa entusiasma-se! Mas agora há 13 capítulos que não morre ninguém interessante nem houve quaisquer sinais de mais desmembramentos! Haja “bloody” paciência para 759 páginas assim! Pelas cuecas de Merlin!!!
No dia do casamento houve chuva e frio. Havia um tapete verde colocado na entrada da vivenda, com uma forte inclinação. Como o tapete tapava os buracos do chão, as senhoras não viam onde punham os saltos e vinham todas agarradas ao corrimão, como se viessem a descer os Pirinéus. Tenho que admitir que foi particularmente divertido ver, cá de baixo, a chegada do “trio Brasília” (3 chiques senhoras da 3ª idade, oriundas de Brasília).



Depois havia pão de queijo, torresmo, paçoca, pamonha, mandioca, amendoim com cobertura e doces mineiros. Coisas que são todas muito difíceis de explicar, por isso vou só dizer que o principal era churrasco e que o bolo não era bolo, era uma arquitectura de pedaços de goiabada, que se comem com queijo. No monte de goiabada jazia uma reprodução perfeita dos noivos (com os bonecos montados na mota do noivo, que era motoqueiro, e o cão da noiva ao lado) os quais entretanto foram bombardeados com arroz. Mas quando digo bombardeados é memo a sério! Os atiradores não mostraram qualquer réstia de piedade! E parece-me que os recém-casados ainda hão de ir para lua-de-mel com nódoas negras pequeninas, do tamanho de grãos de arroz…
Andava por lá uma senhora muito solicita e muito expansiva, que, com pena de mim por eu andar há 3 dias e duas noites exclusivamente com o esquadrão +de50/+de60/+de70/pirâmides, me queria apresentar ao Elias. O Elias era um amigo do noivo, de cabelo comprido e ideais ambientalistas que faz mestrado em meio ambiente. Apesar de ser bastante pública a minha “paixão tremenda” pelo campo, pelos animais e pela natureza em geral, recusei a oferta. Porque não ia falar com ele do aquecimento global que é cliché de mais e o tema de conversa acabaria por esgotar-se no “Bambi” sendo que eu nem sequer vi a sequela. Mas a intenção é que conta e eu agradeço na mesma.
Domingo, entre a partida de BH e a chegada a SP, a temperatura variou entre os 9 e os 10 graus. Mais uma vez só tenho obviamente a agradecer ao meu pai que me disse para eu não ocupar espaço na mala com o meu casaco de Inverno que não valia a pena, porque aqui não fazia frio. Agora o supra mencionado já disse que eu podia comprar um casaco, coisa que eu faria de bom gosto se tivesse tempo durante a semana ou se alguém me levasse a um centro-comercial durante o weekend. Dado que nenhuma da duas opções se tem proporcionado e como para os lados de Congonhas e Ouro Preto as modas não eram tudo isso, vou continuando fiel ao meu capucho vermelho (ver post anterior).

Viva os noivos!!!
E eu acredito quem ainda há quem viva feliz para sempre…

Comentários

Rita disse…
oh pah! acabei o primeiro caítulo há coisa de 20 min (que foi o tempo que demorei a ler esta curta missiva) e não me apercebi de ninguém que ficasse sem orelha!

E isto foi tudo o que consegui reter do post....
Ana disse…
Opa lindo!! Parece mesmo "estoria" de novela!! So me ria! Principalmente com o facto de que o comer do casamento era churrasco e que o bolo era goiabada!!! Mais ninguem se ia lembrar! LOL mto fixe. Diverte-te miuda!**

Mensagens populares deste blogue

Já cá estou outra vez, desculpem a demora...

Aproveito o 8 de Março para dizer que as mulheres deviam ganhar mais do que os homens

Um fim de ano especial, com festa no Palácio Real!