"Oh professoraaaa!!!"

Já há muito tempo que eu não ouvia a campainha tocar.
Numa certa altura acabaram com as campainhas. Parece que elas nos tiravam responsabilidade e deixavam-nos ser crianças mais tempo.
Mas já há muito tempo que eu não ficava nervosa quando ouvia a campainha tocar…



No primeiro dia de aulas o meu pai levou-me à escola. Eu, sentada no banco de trás, cuspia perguntas de ansiedade. Ainda bem que não sabia as respostas.
Balançava os meus receios entre a janela e o meu pai, e cuspia mais uma pergunta ou outra. Não queria saber das respostas, porque também não queria fazer perguntas, porque na verdade não sabia se queria ir.
O vestido branco sentou-se no chão, mas tirando isso correu tudo bem.

Hoje foi diferente. Ia sentada no banco da frente e tive que fazer perguntas para descobrir caminhos alternativos, pois aquele que eu havia desbravado ainda estava cortado devido às inundações de Domingo à noite.
Ouvi as respostas com atenção, mas estavam invarialmente erradas. Da janela do carro só se via o nevoeiro. Fiquei sem bateria no telemóvel, perdida e incomunicável. A minha amiga passou a manhã a imaginar as 300 maneiras que poderiam ter conduzido à minha possível morte.
A montanha tem estradas sinuosas, apertadas e mal sinalizadas. E na montanha também há hora de ponta! E pior que isso! Há imensas escolas primárias…e eu lá fui, ziguezagueando entre uma e outra, um escorrega vermelho aqui e um campo de futebol ali.
Mas desta vez eu sabia que queria chegar!
O vestido era preto, de professora.
O cheiro era o mesmo. Aquele que têm todos os corredores feitos de risos que ecoam mais alto que a lua e de cabides pequeninos, de onde pendem os casacos com sonhos adormecidos no capucho.
Desta vez, os comentários de homem feitos por meninos que me chegam à cintura, se tanto, não me fizeram perderem a pose.
Mas os meus meninos não faziam comentários de homem. Disseram “Professora és grande!”
“Professora, o que é epred.. empreend.. eprendeer..?”
“Empreender é ter ideias e planos e trabalhar para realizá-los…E alguém sabe o que é um voluntário?”
“São os bombeiros!” “É o motorista de táxi!” “Mecânico!”
“E porque é que as pessoas de uma família são diferentes?”
“Porque não são iguais!”
E porque é que não são iguais?”
“Porque são diferentes!”
“Quem é que quer ler? Quem é que quer falar sobre a família?”
“Eu!Eu!Eu!Eu!Eu!Eu!” - e os dedos brotavam no ar incessantemente, quantos mais desciam, mais eu via a desabrochar...
“Vamos ver um livro? Vamos desenhar?”
“Yupiiiiii!Eeeeeeeh” - Porque quando somos crianças temos uma visão sobredotada, tudo é mágico, e colar 6 autocolantes deslavados num livro improvisado é a coisa mais emocionate do mundo!
“Aprenderam muitas coisas hoje?”
“Siiiiiiiiiiiiiiiiiim!!!”

Eu também! E vocês nem imaginam… Porque no fim, tudo o que quiseram saber foi tão simplesmente:

“Professora, voltas amanhã não voltas?”

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