Um dia no Estoril Open

Aconselho vivamente toda a gente a conservar no seu círculo de amigos um ou dois jornalistas. È verdade que eles são pobres, porém, fazem vida de ricos! Sempre em viagens, experiências, spas, restaurantes, carros topo de gama, tudo de graça, em troca de um espacinho mediático.
Há uns que também recebem bilhetes para o Estoril Open e olha, foi assim que eu consegui o meu!



Num capítulo dos “Maias” o autor aborda uma corrida de cavalos e ridiculariza a sociedade lisboeta de finais do século XIX. A tal corrida é uma falsificação mal feita de Ascott em que acaba toda a gente à pancada com o típico “charm” tuga. Mais de um século volvido e basta entrar na “village” do Estoril Open (onde dei de caras com o CEO da minha empresa) para nos apercebermos de que as coisas não mudaram assim tanto… O lema que Eça satirizava “ importante não é ser mas parecer” dá lugar ao “importante não é ver (o número um do mundo) mas APARECER”. Não, não acaba toda a gente à pancada, salve-nos isso! Na verdade, basta pensar que o Estoril ainda é no outro lado da marginal e, portanto, o torneio devia era chamar-se Cruz Quebrada Open, ou, no máximo do tolerável, Oeiras Open (para não dizer Open do Jamor)!
Os chapéus do Estoril Open também não são aqueles ostensivos das corridas de cavalos, são de palha e são da Super-Bock. Metade do recinto está, aliás, ocupado pela Super-Bock e pelos stands, com meninas de mini-saia, das restantes dezenas de patrocinadores
Sentado à minha frente, estava um senhor com binóculos apontados à bancada vip, de tal maneira que, às tantas, comecei a pensar se ele estaria a planear algum atentado ao Santana Lopes ou assim… Depois havia o casal do “Estou aqui! Estou aqui!!!” que pulava, assobiava, esperneava e até telefonava! Só descansava quando alguém, preferencialmente do outro lado do court, lhes fizesse adeus em sinal de que tinha visto que eles estavam ali. Então aí, e só aí, já se podiam sentar e continuar a ler o jornal e a revista. Outros havia que viviam a coisa estilo jogo de futebol, só que a puxar pela Kirilenko e pelo Federer!
Para acabar em beleza, o entrevistador de serviço era uma pessoa tão singular que encontro apenas uma palavra capaz de o caracterizar em toda a sua plenitude: IDIOTA! Um perfeito idiota que falava para o microfone como se fosse a Catarina Furtado a apresentar os concorrentes do Dança Comigo. Foi dizer ao Federer que estava muito desiludido com ele e perguntou ao vencido se ele se tinha sentido o Nadal quando ganhou o primeiro set. Ora, perguntar a um jogador de ténis se ele se senta a Mariah Carey quando canta no chuveiro é uma coisa, mas perguntar-lhe se ele se sente um outro jogador de ténis contemporâneo, é outra, muito mais estúpida! E como tal, merece apenas a resposta que lhe foi dada “Não, senti-me eu mesmo”. Vejam lá se ele se foi falar com o Davydenko? Não foi, pois com estas tiradas brilhantes, o mais certo era levar uma raquetada na cabeça! Se calhar não era assim tão idiota… ou então estava na “village” a beber caipirinhas, porque convenhamos, está bem que era o nr 4 do mundo, mas estava frio, estava vento e estava quase a chover! Que desagradável!
O meu amigo jornalista olhava atónito e só dizia “As pessoas transformam-se quando vêm ao Estoril Open!”
Felizmente, nem só de vips a dizerem para a televisão que um “Ás” é uma carta do baralho, vive o Estoril Open!
Vi a disputada meia-final da Maria mais querida do público, e assisti estupefacta ao 6-2 que o nr 1 levou no primeiro set, contra um ilustre desconhecido. Os grandes jogadores também fazem erros não forçados e também mandam bolas para fora do campo. Mas depois, no momento decisivo, não falham! E por isso é que são grandes! Já a máquina russa só avariou na final, porque nas meias, fuzilou o adversário!
Além das partidas que quase mais ninguém viu, vi uma coisa que tenho certeza que fui mesmo a única a ver! Vi 10 anos atrás, os jogos que fiz em cada um daqueles courts, o pódio montado no central, que nós tínhamos medo de subir porque já estava algo fragilizado. Treinos de selecção, brincadeiras, o senhor que organizava os campeonatos nacionais e que agora também estava ali, igual, mas com início de calvície, as raparigas do campo ao lado a medirem o espaço entre a marca da bola e a linha, com a tampinha de uma garrafa de água. Um dia eu também fui uma jogadora de ténis!
Mas não hoje. Hoje, eu fui aquela que apareceu na televisão sem saber e que conseguiu apanhar um escaldão quando o país inteiro estava em alerta amarelo e laranja.
Mas valeu a pena! O espectáculo compensou a ausência/má qualidade dos espectadores…

Comentários

Carlos Paredes disse…
como sabes que eras a única nas bancadas a reviver memórias passadas?
Lolly disse…
ahah "apareci na tv sem saber"... pois, pois.. julgas que n sei que levavas um cartaz a dizer "MÃE ESTOU AQUI!!" ? querida, foi "chique a valer!" lol beijos e saudades dos nossos emails quase em código morse ;) agora so dia 5, k segunda me voy***********
Tiago disse…
Tenho saudades de te ver...

Mensagens populares deste blogue

Já cá estou outra vez, desculpem a demora...

Aproveito o 8 de Março para dizer que as mulheres deviam ganhar mais do que os homens

Um fim de ano especial, com festa no Palácio Real!