Tropa de Elite baseada em Foucault



“Homem de negro o que é que você faz?
Eu faço coisas que assustam Satanás!
Homem de Negro qual é sua missão?
Entrar pela favela e deixar corpo no chão!”



Após um ano de tentativas em dois continentes, consegui, finalmente, arrastar alguém até ao cinema para ir ver a Tropa de Elite!
Sempre foi mais rápido do que o tempo que eu demorei para perceber verdadeiramente o “Vigiar e Punir”, do Foucault. O clic só se deu ontem, depois do filme, falando do 1º Comando da Capital. “É uma espécie de Camorra ou Al-Quaeda mas à brasileira, e os líderes conseguem controlar todas as operações mesmo estando presos. Até já pararam São Paulo inteira uma vez!”. Mas o próprio “Comando” está dentro de uma estrutura sistémica muito mais envolvente...
Recapitulando: microrganismos, teias de células, redes organizadas, sistemas complexos, instituições perigosas da modernidade e da pós (se é que já há consenso sobre a era em que estamos). Então: sistemas em rede – panóptico – Foucault – “Surveiller et Punir” (sim, era mesmo necessária a arrogância do título original) – que brilharete que eu teria feito em Teoria da Comunicação e Cultura Contemporânea se este filme tivesse saído há 4 anos atrás!



No princípio achei que pegarem no Foucault ficava sempre bem, dava um ar culto. Oh Deus! Tanto tempo passado com Barthes, Chien e Benjamin, com Goddard, Lynch e Kiarostami, com o Professore Dino Dinoi, e ainda caio no erro de achar que 1 filme pode ter elementos aleatórios!
Tantas vezes a pergunta “cosa sucede qui?” quando parecia que não estava acontecer nada para lá do evidente, tantas vezes o “perché questo piano? questa luce? questo cambio?” e tantas respostas que nunca eram “porque sim”.

Pensava que ia ver um filme violento sobre a corrupção da polícia brasileira. Afinal o filme é sobre Foucault e um livro que eu li no primeiro ano da faculdade.
É um facto que a violência e a corrupção são uma constante. Mas não são gratuitas e talvez por isso não sejam chocantes. Querem saber? Houve várias vezes em que a sala se desarmou em gargalhadas! Porque tem graça andarem a passar corpos mortos de uma área para a outra e da outra para a uma, porque nenhuma das unidades policiais quer ficar responsável pelas mortes e sobretudo, ninguém quer perder tempo a perseguir os assassinos! É um humor peculiar, mas não é surreal, pelo contrário. É mesmo assim. O herói (soberbo neste papel!) é um anti-herói que não se coíbe de torturar inocentes ou ser agressivo com a mulher. Os honestos são mentirosos, os corruptos são uns filhos da p*******, os traficantes são o que são. É mesmo assim. Não, nunca estiva na favela. Eu era uma das que viviam na zona sul dos condomínios fechados ao mundo, com piscina. Mas não era maconheira!

Até ao intervalo imaginei-me a dar um ataque cardíaco aos meus pais “Afinal quero largar tudo e construir uma ONG no meio do morro! Quero ajudar o meu Brasil!”. “Mas tu nem sequer tens sotaque” poderiam dizer-me vocês, pois não, mas o meu pai tem! E eu sei que “veado” quer dizer gay!
Poupem-se os ataques cardíacos, a segunda parte dissuadiu-me da ideia peregrina. A possibilidade de levar um tiro na cabeça só por estar ali é algo que não me agrada. Não se pense que não há lei, o sistema tem falhas mas é mais organizado que o chá das 5 da rainha de Inglaterra (e vocês sabem como os são os ingleses com estas coisas)! O que não há é certo e errado, noção do bem e do mal. Em vez disso, há armas, droga, dinheiro. Não, o dinheiro também não há, se houvesse não era preciso o resto. Por outro lado, se há o resto então tem de haver dinheiro. É complicado o sistema. E está tão imbricado nas suas engrenagens negras que é impossível torná-lo claro. É impossível vence-lo.

E quem é que está disposto a arriscar a vida todos os dias por 200€ por mês? Pois é, o sistema engole todos os valores... e não acaba! Ele é todo um mise-en-abyme de sub-sistemas! Como um conjunto infinito de números... Oooh, Foucault era um visionário! Agora já percebo porque é que a Idade Moderna criou o seu próprio fim ao criar as suas instituições. Porque aí criou O sistema...



Dizer “a culpa é do sistema” é uma desculpa inútil. A culpa só por si, já é uma desculpa inútil. Não há culpas, não há desculpas, não há final feliz. Morre quem deve e quem não deve, quem é rico e quem não tem onde cair morto. Toda a vida pode acabar com a suavidade de um dedo no gatilho e se não forem as forças da lei a carregar, serão as forças do “Comando”. Eles têm todos uma leveza de dedos revoltante!



Mas no fim também perdem todos, todos, todinhos!
Só o sistema é que ganha.
(O sistema e quem manda no sistema, que não é sequer o guarda invisível da torre que vem no livro, é quem manda em quem manda em quem manda em quem manda no guarda da torre. E quem manda está tão longe, que nem sabe o que perde...)


Vá, esta dava para 18!

Comentários

Anónimo disse…
Muito pertinentes e interessantes estas observações; outros vínculos com a realidade podem ser observados procurando-se por Lucio Flavio Vilar Lirio, Mariel Mariscot e Sergio Paranhos Fleury.

EP
Fátima disse…
amei amei amei o tropa de elite

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