O Discurso do Presidente

Eis um assunto que eu já queria ter abordado, mas não tive tempo. Porque, convenhamos, quem não apanhou a cosia do princípio, precisou de pelo menos 5 minutos para perceber do que se tratava…

E eu até tenho um curso, que embora de parca utilidade no dia a dia, me obrigou a leituras com palavras de nível avançado, tais como “holística” “mimesis” “myse en abime” “evenemencialidade” “panóptico” para não falar em semiótica, e isso foi toda uma cadeira!

Então, do meu ponto de vista (é verdade que a nota de Teoria Política não foi brilhante, mas há que ter em conta que eu escrevo discursos, statements e respostas à imprensa, e, portanto, o meu ponto de vista até tem algumas bases) um discurso tem de ter em conta o seu público.

Diz a Teoria da Comunicação assinada pelo senhor Shannon que comunicar é transmitir uma mensagem a um destinatário.
Ora, se o destinatário não tem mecanismos para decifrar a mensagem, parece-me a mim, que a comunicação não vai ser eficaz.
Retomemos a questão do público: se o discurso é dirigido à nação, convém que a nação entenda o discurso. Considerando que nem toda a nação tirou um curso com palavras de nível avançado, que uma grande percentagem da nação nem sequer tirou um curso superior e que apenas uma escassa minoria tirou o curso de direito, o discurso não estava, de todo, adequado ao seu público.

Foi como no outro dia, que ouvi uns desenhos animados a dizerem “Finalmente vamos saciar a nossa fome pantagruélica!”. É óbvio que nenhuma criança, no bom senso dos seus 5 anos, ou 10 que sejam, sabe o que significa, ou sequer consegue pronunciar, a palavra pantagruélica (e já nem vou falar da expressão “saciar”)!
A percepção da nação para o discurso do Presidente está como a percepção das crianças para a “fome pantagruélica”.

É então iminente inscrever quem quer que seja que faz os discursos do Senhor Presidente em sessões de formação e workshops especializados.
Sucede que o discurso do Presidente não foi o único problema do Discurso do Presidente.
Se o senhor quer interromper as suas férias, fantástico, mas interromper as férias da nação, à hora sagrada da refeição, para dizer que vai executar um direito que lhe assiste enquanto Presidente da República??? Mas então, uma professora, por exemplo, vai interromper o recreio das crianças para lhes dizer que irá passar trabalho de casa?
Pois sim que a discussão do tema é pertinente. No Parlamento e na Assembleia!
Até porque o grossa da nação vive no continente e neste momento tem outras preocupações mais acutilantes do que os Açores. E há pelo menos um membro da nação, pessoa de reputação e estatuto, que afirma, eu conheço quem o tenha ouvido, “Nos Açores só há vacas”.

Com o devido respeito pelos Açores, o Discurso do Presidente tinha de ser a anunciar a banca rota do país ou a invasão de Ayamonte!
Foi um erro crasso de agenda política, um desperdício de espaço mediático e da próxima vez que o Senhor Presidente decidir fazer um comunicado à Nação, a dita cuja vai-se baldar à grande!
E porque é imprescindível finalizar com alguém mais apto do que eu no que concerne discursos políticos, passo a citar Winston Churchill (ligeiramente adaptado):

“This was not the end. It was not even the beginning of the end. But it was, for sure, unnecessary”

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