Talento reconhecido ou talento desperdiçado?

A história do copo meio cheio e do copo meio vazio já cheira a velha, dentro da possibilidade de odor que a água contém, claro.
Mas hoje fui confrontada com uma nova adaptação da velha história à realidade. Eu, que há meses andava convencida de que tinha um grande emprego para uma recém- licenciada em comunicação, e que respondia sempre em tom fashion e respeitável , quando me perguntavam o que fazia, descobri hoje, que afinal, posso estar a desperdiçar o meu talento atrás de uma secretária!

Na semana passada a D. Virginia foi-se embora, reformou-se!
A Dona Virgínia era a senhora da "Copa", que trazia o café, o chá e os jornais, e fazia aquelas coisas que mais ninguém tem “tempo” para fazer (como é o caso das fotocópias dos jornais).
No seu último dia de trabalho, a Dona Virgínia trouxe o melhor bolo de chocolate de sempre e isso conferiu à ocasião uma felicidade inoportuna.
Essa alegria completamente desprovida de noção de timing não durou muito, porque a Dona Virgínia faz falta!
Senti essa falta na pele, quando esta manhã dei por mim na arrecadação do 15º piso, a aprender a fotocopiar jornais com a Manelinha (uma versão mais nova e mais expedita da Dona Virgínia). Como coleguinha de turma tinha a Dona Paula, a substituta temporária da Dona Virgínia, que aparentemente desconhece a diferença entre uma folha A4 e uma A3 e considera aquilo das fotocópias uma ciência muito complicada. “Eu, eu não estou a perceber nada disto! Para mim é muito complicado, eu estava habituada a limpar enfermarias!”. E como é óbvio que neste momento entrámos oficialmente nas intimidades, deixando de lado toda e qualquer formalidade ou réstia de protocolo, a Dona Paula fez o seguinte comentário: “Esta menina (eu) é que podia ser modelo! É alta, é magra, é bonita, tem tudo! E vejam só, está aqui a desperdiçar o talento atrás de uma secretária” - e então, a Dona Paula abanou a cabeça em sinal de pena e resignação pelo mundo que está perdido, como se toda eu fosse um tremendo potencial desaproveitado, que acabou viciado no alcoól e nas drogas, a pedir esmola na baixa para sobreviver!
O discurso prosseguiu: “Eu sou uma perrapada, mas o meu sobrinho é famoso! Ele é cantor! Chama-se Leandro! É assim como o Toni Carreira, canta umas músicas românticas e as mulheres gostam! Ele tem cd’s e tudo, e aparece na capa! E ele é filho da minha irmã. Eu tenho ali uns cd’s…”. Aqui eu tremi, imaginando-me forçada a agradecer a oferta de um cd do ” Leandro”… vá lá, não chegámos a tanto!
Apesar de termos acabado por ficar as duas sozinhas na arrecadação, eu a fazer as fotocópias e ela a fazer-me companhia encostada à parede, dando graças a Deus cada vez que o telefone tocava por poder sari dali e perguntando, ocasionalmente:
“Então, já está?”

Depois da conclusão imediata de que não me pagam o suficiente (conclusão já alcançada previamente), pus-me a pensar noutra coisa…
Desde a segunda classe, altura em que fiz o meu primeiro poema (sobre uma ida à Serra da Estrela com os tempos livres) que decidi, sem saber, que queria ser escritora.
Hoje já sei… Quero escrever livros, filmes, novelas, séries, teatro! Humor, drama, romance, terror!
Prosa e poesia, crónica e fantasia!
Não obstante, ali estou eu, atrás da secretária (sem janelas) a escrever press releases, respostas a entrevistas, artigos sem interesse público, relatórios de imprensa, respostas a pedidos de mecenato, etc (com a devida plenitude de enfadonho que a expressão “etc” encerra).

E então pergunto-me:
Será mesmo que a Dona Paula não tem razão?

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