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Os transportes públicos são uma Utopia. Como andar na calçada de saltos altos. É por essas e por outras que quem tem alma de Carrie Bradshaw rapidamente se converte numa adaptação de 4x4 todo o terreno, com acessórios.

A imagem da paisagem a passar pela janela e os olhos a passarem pela paisagem, alimentando com ela os sonhos tímidos, que têm vergonha de sair de debaixo da almofada, não é mais que que uma miragem. Uma miragem entrecruzada com a música que, se não fossem os ruídos entrópicos (que é como quem diz travagens, buzinas, motores, telemóveis e outros que tal), levaria o pensamento às piruetas em pontas; a música dos fones, capaz de fazer esboçar sorrisos em “grand plié”. Mas os carros parados na segunda circular também não fazem rir.

Os buracos do caminho perpetuam o não cessar dos solavancos, dos tropeções, dos encontros bruscos com os vidros e com os sapatos alheios. As letras do livro fogem. Levam consigo todo o lirismo que eu imaginei para esta viagem. O próprio Kandinsky não retiraria dali um único lírico traço abstracto, mesmo que esperasse pacientemente, meia hora de minutos com meia hora de pessoas pela frente (eu contei). Mesmo que não conseguisse ficar entalado na porta do primeiro que passou (porque os artistas gostam desta coisa de inventar sofrimentos). Não, não há aqui qualquer lirismo, é melhor procurar nas vacas, como Mondrian.

Enfim “Para hoje, tudo o que peço na vida é chegar a casa sem ter desmaiado” e então vislumbro uma botija de oxigénio. Mas o peso da mala são apenas inutilidades: baton do cieiro, mp3, livro, carteira, chaves, óculos de sol…(vão dar um jeitão os óculos de Sol, quando chegar a Algés sob a ténue luz do crepúsculo…).

Entretanto apertam e intensificam-se os aromas a pulsões de vida e o calor humano da massa proletária, na sua maioria proveniente do continente africano.
Comunismo sim, mas com ar condicionado por favor.

“Ainda viva?” – perguntam-me.
“Melhor que isso! Sentada!” – e para não perder o impacto omiti que a porta me batia nos pés cada vez que abria.

Medo? Medo de voltar a andar de carro?
Ah ah ah
Eu tenho medo sim, mas é de voltar a andar no 50 às 6 da tarde!

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