Pessoas precisam-se



Uma vez, a minha professora louca de filosofia (conhecida como “a louca”), disse que até para se sentir sozinho o ser humano precisava de companhia. Sim, porque se não souber o que é estar com alguém, como se pode sentir sozinho?
6 anos passados sobre esta aula e eu continuo a achar que é uma pequena pólvora do saber.

Este Sábado à noite lembrei-me da “louca”. Porque eu tenho um amigo que é baterista numa banda de heavy metal, embora ele esteja convencido que toca “rock progressivo”. Não, o meu amigo não é louco, é músico (e trabalha numa Junta de Freguesia).
O meu amigo deu um concerto este Sábado à noite, num bar perdido no mais profundo Cascais, onde não há asfalto pelos caminhos nem pessoas pelas ruas. “Isto parece aquele filme do Tarantino em que eles vão a uma festa numa discoteca no meio do nada e depois da meia-noite as pessoas são todas zombies” – pertinente intervenção da nossa amiga Fátima.

Eu já tinha dito à Inês – amiga minha e namorada do meu amigo – que íamos ser as primeiras a chegar. O que eu não sabia é que seríamos as únicas. Porque o espaço, tirando estar no meio do breu e do pó desse Cascais profundo, até era agradável. Sobretudo em comparação com o outro concerto do meu amigo a que nós fomos, num bar na outra margem, com morcegos e teias de areia pintadas na parede e onde as únicas pessoas com roupa de cor éramos eu e a Inês e os pais de um dos membros da banda. Este bar até tinha um dj, dois barman, um porteiro, uns maples confortáveis, matraquilhos, máquinas de jogos, snooker, espelhos grandes e uma long-chaise. Só não tinha pessoas. “Isto entre a meia-noite e meia e a uma é que começa a encher” – garantiu-nos o porteiro. Uma mentira piedosa para nos fazer sentir melhor pelos 5€ que pagámos. Mas não era preciso, as nossas consciências estavam tranquilas, esses 5€ asseguraram o cachet de 7€50 que a banda arrecadou.

A banda não é má, têm lá aquele estilo metal/”rock progressivo”, mas são bons. Só que não saíram dos Morangos com Açúcar, não conduzem um táxi amarelo, provavelmente também não devem ter muitos amigos e a moda do carjacking não convida a lugares como este, que é preciso imprimir um mapa para chegar lá.
À uma da manhã ainda não tinha entrado mais ninguém e a Inês teve de ir levar a Fátima a casa de emergência, de modo que o concerto começou só para mim e para o dono do bar. “Esta música é para Alexandra” e a outra a seguir foi para o João (o dono do bar) e a terceira voltou a ser para a Alexandra, por falta de opções.

Claro que um concerto intimista tem as suas vantagens, como perguntarem o que é que queremos ouvir, sendo isto bastante conveniente quando se trata de um concerto de metal (“rock progressivo”) e portanto aproveitei logo para pedir Bon Jovi. Por outro lado não dá para ir lá fora atender o telemóvel porque eventualmente vão reparar e é capaz de ficar chato. E bocejar requer uma astúcia tremenda, para faze-lo sem que o nosso amigo, de frente para nós no palco a 1m de distância, não repare. Entretanto a Inês voltou e eu animei-me a dançar o Eye of the tiger (outro pedido externo). A Inês não quis “vai ficar toda a gente a olhar”. Ah ah ah ah ah “toda a gente”. “Toda a gente” era a banda, o staff do bar e duas almas que entretanto apareceram porque se devem ter perdido no caminho para o Tamariz.

Enfim, o concerto foi bom, mas sem pessoas não chegou a ser um concerto, foi uma espécie de ensaio e, no final, a banda estava visivelmente frustrada (apesar dos meus esforços hercúleos no Eye of the tiger). Acontece aos melhores, quantas salas de cinema vazias não há por aí com grandes filmes? Mas a verdade é que eu também não gosto de estar num cinema vazio.

Agora de repente, lembro-me de meia dúzia de situações em que mais gente não faz falta nenhuma: serviços sociais, correios, finanças, loja do cidadão, secretaria da faculdade, urgências do hospital, fila para os museus do Vaticano, etc.
Mas de um modo geral, “a louca” tem razão. Precisamos do(s) outro(s) e não é só para estar sozinho, mas para viver.
O ser humano é, irremediavelmente, outrodependente.

Comentários

Anónimo disse…
hahahahaha!!! agora é que foi rir!
este texto está cheio de incorrecções mas deixo para o Pedro a tarefa de os corrigir :P
devo dizer que gostei bastante,
não fosse a ausência de pessoas... q torna a coisa um bocado...deprimente.
O DJ tem futuro, é so o que eu digo. mas noutra área artistica.
Fátima disse…
hahaha de facto o bar era completamente from dusk till dawn. e aproveito para aconselhar o filme. de resto tive meeeeeesmo pena de ter perdido o concerto porque estava com a pica toda depois de ter jogado street fighter com a Inês...apesar de ela me ter ganho umas vezes, misteriosamente...
Fátima disse…
(o filme é de facto do amigo do tarantas, robert rodriguez,mas o QT entra como um dos protagonistas. teeeens de ver. aqui fica: http://www.imdb.com/title/tt0116367/)
Anónimo disse…
misteriosamente?? ganda lata!
eu fui uma Ás do pontapé!
Enolough disse…
Eu trabalho numa Câmara Municipal com 20 Juntas de Freguesia; João vinha com a banda, o que torna tudo mais grave (nem o dono do bar lá estava); o palco ficava a muitos metros de ti porque a sala era enorme; a banda é de facto uma banda de Hard Rock Progressivo; tocámos músicas a pedido do público; toda a gente reparou na tua dança; foi o concerto com menos público dos 200 que demos até hoje.
Anónimo disse…
Primeiro, tive para pôr Câmara Municipal mas achei que era Junta, dá na mesma, tu também dizes que eu tabalho no Pingo Doce; alguém me disse que aquele era o dono do bar; o palco n ficava nada a muitos metros de mim porque eu via-te a pestanejar; ok, então a banda é de "hard rock progressivo" mas as músicas são metal; eu disse que tocaram músicas a pedido do "público" qual foi o problema com esta?; "toda a gente" reparou na minha dança, confirmo, sendo q toda a gente eram tipo 4 pessoas; é claro que foi, só estava lá eu e a Inês!

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