Napoli a Lisbona



Nápoles veio a Lisboa. Foi visível para qualquer pessoa que tenha saído à rua na passada quinta-feira. Cachecóis azul bebé, rostos de feições robustas, pele morena, tatuagens nos braços, roupa à “la italiana”. Nem precisavam abrir a boca e as pessoas já os olhavam com um misto de curiosidade e receio. Serão todos mafiosos? Se o Benfica ganhar vão agredir-nos e partir-nos o estádio todo?
Eu tive a oportunidade exclusiva de observar a espécie mais de perto. “Tu tem cuidado que os napolitanos são perigosos” “Não, não, o meu amigo não é desses, ele é civilizado”. Pensando agora nestas palavras só me posso rir. Não é que o meu amigo não seja civilizado (ele até fez o esforço de comer a pizza com talheres no restaurante, embora sob algumas reclamações em prol da identidade cultural de comer pizza à mão), os outros napolitanos é que não são nenhum gang de vândalos separatista, não obstante toda a problemática do crime organizado e as inerentes particularidades da 2ª cidade de Maradona.



Mas este discurso animoso só o posso fazer agora, depois do jogo, depois do golo do Nuno (Lindo) Gomes. Porque antes, até para mim, sentadinha no sector 31 da bancada da TMN, foi uma surpresa ver a pacífica interacção entre napolitanos e benfiquistas.
O meu amigo foi praticamente adoptado pelos adeptos portugueses: riam-se com ele, falavam-lhe em português e ele ria de volta e respondia que “si, si” embora não percebesse nada do que lhe diziam. Mas isso também era secundário!
À nossa frente estavam mais dois napolitanos, ali perto outros 3 e à esquerda, a bancada dos ultras, imensurávelmente mais ordeira que os Super Dragões ou a Juveleo. O napolitano da frente comentou com o meu amigo “Ma che bello spetacollo!” e de facto esse era o espírito, essas eram as palavras, em português ou não. Foi por isso que não me surpreendeu quando, de repente, dei pelo meu amigo a emergir na massa vermelha e branca, cantando “slb, slb, slb...”. O placar já marcava 1-0 e ali estava ele, desiludido, mas contagiado pelo “spetacollo”, pela festa que dizem que é o futebol, mas que nem sempre se faz.



Os momentos mais violentos foram marados pelos protestos das filas de trás contra as pessoas das filas da frente que se punham em pé "Senta-te lá um bocadinho oh Rui Costa!" gritavam para o senhor ao meu lado, com a camisa do Maestro. A rapariga da frente que limpava a blusa do namorado e lhe segurava na cadeira cada vez que ele se levantava, já era só deprimente.
O italiano da frente, descontente com a prestação dos azurri, dizia-me que era uma parte para cada equipa e que na segunda seria a vez do Nápoles. Não foi. Temos pena! Mas agradecemos o striptease de Canavarro e companhia, a apenas 5 metros de distância (pensei de imediato na Alana, até porque o meu amigo estava demasiado convalido para apreciar devidamente a beleza do momento).
Ele adorou a águia, detestou os últimos minutos. Sorriu quando lhe tocaram no braço para propor uma troca de cachecóis e olhou para mim em desespero, os olhinhos azuis assustados, a pedirem-me para explicar que não queria trocar porque já eu já lhe tinha oferecido um cachecol do Benfica.
À saída fomos levados pelos cânticos efusivos que ecoavam na 2ª circular “Ninguém pára o Benfica, ninguém pára o Benfica, ninguém pára o Benfica alé oooh”. Mais uma vez, sem qualquer confronto ou desordem.
Afinal, independentemente da cor do cachecol, também há poesia no futebol!



E de Belém ao Castelo, de Sintra ao Parque das Nações, do Bairro Alto à festa dos 80’s na Comuna, do cabo da Roca ao Estádio da Luz, a única coisa que, não sendo incivilizada, me deixou completamente inconformada, é que ele não tenha gostado das queijadas da Piriquita!

Comentários

Tracey disse…
não acredito! as queijadas são um clássico! ao menos gostou dos travesseiros?
Ale disse…
eu tb fiquei revoltada! mas sim, pelo menos gostou dos travesseiros e adorou os pastéis de Belém!
Camila Ciberi disse…
Queijadas?? O que seria isso?
E quem não gosta de um travesseiro!! Aqui usamos para dormir, aí, já não sei!
Camila Ciberi disse…
Queijadas?? O que seria isso?
E quem não gosta de um travesseiro!! Aqui usamos para dormir, aí, já não sei!
Enes disse…
nao percebo. fico sempre mal nas tuas fotografias. maldita sejas.
Ale disse…
Ai Cá, nunca haverá um acordo ortográfico que resolva os nossos problemas comunicacionais... então, queijada e travesseiro são dois doces típicos de Sintra, uma vila muito famosa e muito linda, perto de Lisboa. A queijada é feita de queijo e o travesseiro é aquele que aparece no canto superior esquerdo da última série de fotos, em cima da foto que diz "amo-te lisboa". Ah! E aqui travesseiro de dormir a gente chama almofada! ;P
beijoooo

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