Contar aos pais - o eterno dilema da filiação

Devia haver um manual de crise com soluções teórico-práticas para contar “as coisas “ aos pais, desbravando sabiamente as questões do como, quando e através de que meio.
Se assim fosse, eu teria tido uma semana muito mas tranquila…

Segunda-feira passada roubaram o meu computador. Isto é, desapareceu, misteriosamente, da sala de aula 2 da Escola de Post Grau. A aula havia acabado, eu desloquei-me aos lavabos e, quando regressei, encontrei-me com porta fechada, luzes apagadas e nenhum cristão, budista ou mórmon pelo corredor. Procurei exasperadamente o “chico de seguridad” que lá teve de me abrir a porta (que chatice estas alunas estrangeiras que se esquecem das coisas na sala). Porta aberta, luzes acesas, imenso vazio. Nem sinal do meu Sony Vaio prenda de anos, “es decir”, novinho em folha (e não, eu, inteligência suprema e licenciada, não tinha back ups. E ainda tinha lá dentro o cd da Deolinda, tal brinde de bolo rei!).

Os mossos d’esquadra dizem que não podem fazer nada, a não ser procurar nos mercados negros porque, segundo o oficial que registou a minha denúncia de furto, eles conhecem os mercados negros (então e desmantelá-los, no va bien?). A Universidade diz que nada pode fazer. O “Chico de seguridad” vai ser interrogado.

O que é que eu digo aos meus pais quando eles me ligarem a perguntar se está tudo bem?

O primeiro statement foi a omissão de statement. Não dizer absolutamente nada até o pc aparecer. Após uma semana sem aparições e alguns emails/chamadas perdidas revestidos de preocupação paternal, a situação tornou-se insustentável.

Alternativa 1 – Transformar o furto num roubo, o que, de acordo com a terminologia criminal implica ameaça/uso da força. Vantagens: Completa desresponsabilização pessoal sobre o sucedido e, consequentemente, impossibilidade de repressão maternal do género “A culpa é tua porque deixaste o pc na sala; Desvantagens: Segundo o meu tio (eu continuo a achar que era uma boa alternativa) seria muito mais dramático para a entidade paternal pensar que a qualquer momento eu poderia ser esfaqueada ou baleada pelas ruas de Barcelona.

Alternativa 2 – Inspirada na minha colega de master que se assumiu perante a família como bissexual (pelo qual a família cortou comunicação com ela durante 6 meses,) pensei em escrever um mail aos caros progenitores com uma falsa assumpção de homossexualidade, desmistificada no final com um “Na verdade isto é tudo mentira, só me roubaram o pc e como podem ver há coisas piores. E não podem ficar 6 meses sem falar comigo porque estamos no Natal.” Vantagens: Desvalorização em perspectiva do sucedido e possível, mas pouco provável, inibição de repressão maternal. Desvantagens: Contei a ideia à minha amiga “bi” (fantástica revelação de tacto para assuntos sensíveis) e ela, não obstante risadas sinceras, no fim disse (numa frase que eu senti algo irónica) “Obrigado pela parte das coisas piores”. Ah ah ah… Outra desvantagem é que, provavelmente, os meus pais seriam mais compreensivos que os dela o que tiraria força à desvalorização em perspectiva.

Alternativa 2 melhorada – Na mesma linha de comunicação, fazer um post substituindo a homossexualidade por uma ideia mais credível e, simultaneamente, menos aceitável, como por exemplo: “estou grávida e vou largar tudo para me casar e ir viver no Cambodja. Porque me disseram que, tirando falarem khmer e fazerem 40 graus à sombra, há muita procura de mão de obra licenciada. Vantagens: as mesmas da alternativa 2 mas com um grau de impacto superior. Desvantagens: a Rita e a Directora de Comunicação de Unilever dizem que comunicações de crise devem ser feitas da forma mais directa e pessoal possível. Pelo que, o facto de uma comunicação pública e impessoal, já poderia predispor aborrecimento no meu público-alvo e também, segundo a Neuza, algum ataque cardíaco pelo seu conteúdo.

Solução escolhida: encher-me de coragem, ligar ao pai e contar a verdade e nada mais que a verdade.
Atenuantes: O porta-voz de comunicação da Nissan,pessoa responsável,casada, com filhos e que aparece na tv espanhola, deixa sempre o seu portátil (com informação confidencial) abandonado na sala de aula durante a pausa de meia hora; a Rita entornou uma chávena de café em cima do computador dela, perdeu tudo porque também não tinha back up ( e ela é licenciada em informática!) e conseguiu reaver o pc mas pagou 500€ de arranjo.

Resultado: “Oi quirida, tudo bem?”
“Não.. etc etc etc”
“Puxa vida.. qui chato… E dji resto tudo bem?”
Claro que houve repressões maternas, porém, muito contidas.
Ai, se eu fosse minha filha não era assim!
Felizmente, sou filha dos meus pais, e eles continuam a gostar de mim!

Comentários

i disse…
que santos pais...
Rita disse…
Estragas-me a reputaçao de Engenheira Informatica mulher! A cena do café foi porque eu tava altamente medicada e sem grande noçao das coisas!! (mensagem p todos os leitres do blog que sejam potenciais contratantes da mha pessoa)

Mas eu recuperei o portatil e ainda recuperei as coisas (eu tinha backups em Portugal, né??), tu tiveste bem mais azar... =(

Mas podes usar o meu, seja para os "postes" no blog ou para os casos do Master, tranquila cariño.

Baci
Tracey disse…
fogo pá! também queria ser filha dos teus pais...
carla disse…
São coisas que acontecem... ja confiar na Rita... pois...
chico de seguridad com bigode farfalhudo disse…
vendo-te um sony vaio com toda a informaçao que necessitas por apenas 100€
Camila Ciberi disse…
Alexandra! Não deixe suas coisas na sala de aula! Aí não existe aquela plaquinha, do tipo, não nos responsabilizamos pelos pertences deixados na sala de aula durante os intervalos? Não sou boazinha como sua mãe! Rsrsrs!
Saudades!

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