A Menina Insuportável



Ontem falei do Principezinho. O que, perplexamente, remeteu os meus pensamentos para “A menina insuportável”, da qual vou falar hoje. “A menina insuportável” começou por ser um livro, que alguém ofereceu à minha irmã. Podendo ser interpretado como presumível indirecta, possível subtileza, cabe-me a mim desmistificar a questão: tirando as birras para comer, a fragrância a estrebaria com que impregnava o carro e a casa cada vez que voltava da equitação, o facto de já estar a dizer “foi a mana” quando a minha mãe ainda nem tinha terminado de perguntar “O que é que se passa?” em tom ameaçador, e de ter partido uma boneca de loiça de que eu gostava muito na minha cabeça, a minha irmã era e é, bastante suportável. E qualquer livro, sobretudo naquela idade, correspondia a oferecer um par de luvas a um peixe dos trópicos. Portanto, quem o leu fui eu. E durante uma boa meia dúzia de anos, entre pessoas com quem simpatizei mais, menos ou de todo nada, nunca encontrei nenhuma menina insuportável. Até ao dia em que passei para o terceiro ano da faculdade e os do 4º começaram a frequentar mais assiduamente as nossas aulas, ou nós as deles, depende do ponto de vista (Bolonha na minha faculdade foi uma salganhada, isso é que é preciso deixar claro).

Ela fazia toc toc quando caminhava e remexia os fios de cabelo insistentemente, indecisa entre pô-los para o lado ou para trás da orelha. Só sabia construir frases se começassem na primeira pessoa do singular. “Eu toco um instrumento musical, eu trabalhei na TVI, eu falei com o Toy, eu sei, eu acho, eu faço, eu aconteço, o meu namorado é filho da celebridade X. Ui, desculpem, afinal ela também começava frases com pronomes possessivos. Nunca falei com ela, não era preciso, a voz colocada em modo super-tia ecoava pela torre. Se calhar até é boa pessoa, não me cabe a mim fazer juízos de valor. Lembro-me que, efectivamente, até havia 3 raparigas que, de vez em quando, parecia que a ouviam. De resto, não era uma figura empática nas cortes.

Uma vez, no final de mais uma das suas brilhantes e prolongadas intervenções, o professor, depois de ela ter desrespeitado todos os seus sinais de stop, disse-lhe “Não sei se reparou mas há mais pessoas na turma”. Foi o gáudio geral! A aula de Teorias do Drama do Espectáculo que nunca esquecerei (a par daquela em que o professor se meteu em cima da mesa e lá atrás se faziam apostas de quando iria cair).
E de facto não, ela não reparava verdadeiramente nas outras pessoas, estava sempre demasiado ofuscada consigo mesma. Não me lembro como se chama, para mim era e será sempre a Menina Insuportável.

De todas as coisas que, en passant, a escutei debitar, lembro-me particularmente desta que, teria sido bom motivo para lhe dirigir a palavra.“Isto para mim não é nada, eu lia Kafka com 12 anos!”. “Isto” era um dos cadeirões do curso, com uma percentagem de sucesso invariavelmente inferior a 50%.
A minha prima de 7 anos também lê Kafka se eu lhe der um livro, e até é capaz de fazer comentários, com lápis de cera. Claro que não detenho o conhecimento de causa nem a qualificação para avaliar as capacidades cognitivas ou medir o QI da Menina Insuportável. Tenho porém, um contra-argumento infalível, com o qual a devia ter confrontado com a mesma altivez e o mesmo orgulho com que ela se gabava das suas leituras infantis.

Eu, por volta dos 12 anos, lia o Principezinho!
(E tive de me debater numa segunda leitura, espaçada da primeira, para entender e gostar do livro).

Comentários

Enes disse…
lolool nao me lembro do nome dela, mas sim, sei perfeitamente!
eu tb lia condessa de segur, estou aqui às voltas com a memória para me lembrar do nome.

(ida à estante)

hahaha curiosamente chama-se "As meninas exemplares"
Tracey disse…
também li a condessa de segur!! haha mas era tão politicamente correcta que irritava. com 12 anos lia o principezinho, os cinco e a minha mãe começou a obrigar-me a ler uma familia inglesa e assim. lol
Anónimo disse…
quer dizer, insuportável mesmo é alguém vir passar o natal a lx e n dizer nada... bah****** feliz maravilhoso e inesquecível 2009 babe ;)
ass: a sua Lela lol
Camila Ciberi disse…
Eu não li nenhum desses livros aí (Fora o Principezinho,que aqui chamamos de Pequeno Príncipe) , mas já passaram algumas meninas insuportáveis pela minha vida. Aquelas que você olha e dá até nojo...

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