Matrimónio em território Espanhol

Não é fácil apanhar conversas a meio, sobretudo quando ao embalo ruidoso do comboio se junta o arrastar cantante do sotaque sul-americano. Os sul-americanos têm uma maneira diferente de falar que extravasa as dissonâncias de pronúncia. Eles falam sem cerimónias: dizem o que pensam, perguntam o que querem saber. Mas, como já dizia o Rui, há sempre um lado lunar, e, às vezes, a sua maneira de falar é desarmada pelo seu próprio à vontade e nem mesmo eles, sabem o que responder…

9 da noite de Quarta-feira
Comboio Campos da Universidade – Barcelona
O professor convidado acompanha-nos no regresso a casa. É um argentino de modos corteses e aspecto cuidado, o que disfarça a idade, provavelmente além da sexagenária. A aula foi muito interessante, cada coisa que ele dizia era um tiro em cheio no alvo. Tratava-se de um dos mais cotados e respeitados consultores de comunicação e imagem que já anda nesta vida há toda uma vida. Mas nem assim é minimamente arrogante e a sua simpatia decorre numa animada conversa com alguns alunos. Eu sento-me a seu lado a meio da conversa e tento apanhar o ponto da situação:

Professor - …Y fue una pesadilla porque no lo dejaban Salir de Cuba y entrar en España.
Alexandra pensa: Alguém (homem) precisava de sair de Cuba para vir para Espanha e não conseguia. Normal.
Professor (para a rapariga cubana) – Pero eso que me dices me interesa muchísimo, le voy a decir que lo haga ahora mismo porque no lo sabe.
Alexandra pensa: Afinal o tal ainda não conseguiu sair de Cuba.
Professor: Si, porque ahora quiere volver y no le dejan y tiene todo ese lío con la casa y sus cosas…
Alexandra pensa: Afinal já conseguiu sair de Cuba e agora não consegue voltar.
Professor: Porque yo hice de todo para traerlo aquí y yo conozco gente importante pero ni así, ni así.. y claro el matrimonio tenia que ser en territorio español.
Alexandra pensa: Ahhh! Então ele tinha de sair de Cuba para casar-se em Espanha.Mas porque é que o matrimónio tinha de ser em território espanhol? Bem, a família da noiva devia ser muito tradicional ou então muito grande e não podia embarcar toda para Cuba. E esta pessoa é de certeza muito chegada ao professor, nota-se uma grande preocupação, talvez seja o filho, ou um irmão... Ponto da situação alcançado, já posso participar activamente na conversa!
Professor – Y al final hablé con el ministro de las relaciones extranjeras que dio la orden al embajador y así él pudo venir y nos casamos.
Alexandra sente um forte impulso de surpresa e, meio abananada, repensa: “él” “y nos casamos” “él” “y nos casamos” “él” “y nos casamos”. Exacto. Não há margem para dúvidas. Afinal a família da “noiva” não era muito tradicional nem muito grande…

A parte da conversa que eu perdi:
Colega do Perú – Y tú te casaste con una española o con una argentina?
Professor – Con un cubano.
Colega do Perú: Paralisação gélida, silêncio inquebrável.

p.s- Vês Neuza, esta ainda foi pior do que quando tu perguntaste à professora de inglês se ela estava grávida… (e ela não estava).

Comentários

Tracey disse…
ahah. muito bom. apanhar conversas a meio, sempre giro.

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