A neve



Quem não tem a melodia do let it snow let it snow let it snow a soar em algum gramofone da memória auditiva? Quem nunca viu um filme de Natal com os pinheiros brancos, e as pessoas com casacos quentes, e os carros cobertos de neve como bolos com cobertura de açúcar, e as ruas brancas, contrastando com as noites escuras, interrompidas apenas por pequenos flocos (às vezes até em forma de estrela) que caem suave suave, como se fossem algodão doce…
Quem nunca sonhou em fazer um boneco de neve?
Sim, como é bela a neve idílica e utópica, a neve das canções melódicas, a neve dos filmes românticos, a neve dos postais de Natal e da Patagónia.
Mas a neve da montanha, algures no topo da “Piccola Svizzera” da Itália, tem outros contornos que escapam à comum apreciação de neve a distância.
E os bonecos de neve não são todos fofinhos!



Seria mentira dizer que à primeira vista não é impressionante, para alguém que está habituado ao clima mediterrâneo e às praias do Brasil.
A primeira vez que neva é melhor que uma chuva de estrelas cadentes. As descidas alucinantes no trenó de corrida são melhores que looping de montanha russa. A criação de intimidade com a neve dá vontade de moldar uma almofada, trazer o aquecedor e dormir ali.



Mas no dia seguinte, o carro atola mesmo à entrada da garagem, as correntes de neve transformam-se numa odisseia interminável, o limpa neves não passa, as correntes perdem-se pelo caminho, o carro recusa-se a subir a montanha, nas beiras da estrada há pegadas de lobos. A cidade fica a uma hora da vila turística, porque não se pode ir a mais de 30. As árvores cerram o caminho, impedindo o sol de passar, mas ele também só brilha uma vez por semana…



Os dedos grandes dos pés começam a criar estalactites enquanto os das mãos ficam imobilizados. Na cidade, cada passo sem cair é um milagre, sem falar nos 30 minutos de patinagem "artística" (99,9% do tempo agarrada ao corrimão - "a marcha dos loosers").



Esquiar é fantástico, imagino eu, que não consigo meter nem tirar os esquis sozinha.
Cair não magoa, só é chato porque depois é preciso chamar uma grua para ajudar a levantar. Mas mais chato é esquiar na pista das crianças, onde, além de esquiarem melhor que eu, todos os atletas me chegam à cintura.
Foi uma experiência curiosa, especialmente porque eu não sabia que conseguiar esquiar para trás e foi engraçado descobrir que quando se esquia para trás não há como travar. Isto é, ou se espera até ao embate com alguma criancinha que, ingénua, esteja a passar na retaguarda, ou se cai para o lado propositadamente, sabendo já da cerimónia requerida para voltar a estar de pé.



Claro que nem se cogita ter internet, televisão ou um clube de vídeo acessível. O facto da roupa da mãe quando era nova me servir já considero uma dádiva de Deus. Caso contrário, teriam de ser os macacões de penas dos irmãos mais velhos, da altura em que eles tinham 14 anos.



Mas quando me disseram que levar-me à neve seria como levar uma Suíça ao Rio de Janeiro, eu achei uma clara desvalorização da minha capacidade de adaptação às mais diversas e adversas circunstâncias!
E não estava errada, de todo!
Mas digamos que a neve é ainda mais mágica nas fotografias…

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