Passagem pela casa Partida

Poucos olhares se vêem tão esperançosos e concentrados como aqueles focados no tapete de bagagens do aeroporto da Portela. O estrondo da mala, que não desce mas desaba em queda livre para o tapete rolante, faz-me despertar.
Estou aqui.
Os olhos tacteavam o escuro em busca de um ícone familiar até que chocaram com aquele que o Pedro diz que é fascista. Havia um foco de luz iluminando o padrão dos descobrimentos e, com ou sem linhas autoritárias, fez-me sorrir pela janelinha semítica do avião, entre a lua cheia e o Tejo adormecido, sabendo que mais à esquerda estava a minha predilecta, a torra de Belém.
Sobrevoei a faculdade e o letreiro luminoso “Sabe bem pagar tão pouco”, no edifício onde piquei o ponto, tantos dias de tantas semanas.
Parecia que o comandante me estava a desenhar as memórias pelo céu, como se fosse preciso lembrar-me as saudades que tenho de Lisboa.
Os meus amigos gozam comigo. Dizem que me transformei numa emigrante retornada que faz o tipo turista. Provavelmente têm razão, afinal, marquei encontro nos pastéis de Belém, arrastei-os para a beira-rio e exigi tirar fotografias.





Mas eles vieram. Vieram desde os confins da linha de Cascais, da dita zona nova ou muito para lá das fronteiras da capital. Vieram depois de uma jornada laboral ou estudantil, alguns que se tinham levantado às 6 da manhã outros que no dia seguinte se levantariam às 7.
Também houve quem preferisse o horário diurno. Então, atravessaram a cidade na escassa hora de almoço e prolongaram-na o mais que puderam, ou deixaram de atender telefonemas e suspenderam o teclar intenso no computador. A minha ex-chefe atrasou uma hora a sua saída, só para me ver. E isso é mesmo comovente!

È verdade que a eterna espera pela mala já me fez sentir na minha cidade e, estranhamente, no bom sentido.
Mas por muito que goste de Lisboa, são determinadas pessoas, com a sua atenção entusiasmada às minhas histórias, com mensagens e telefonemas, com gargalhadas espontâneas e conselhos reflectidos, e com pequenos gestos tão magnânimes como preparar-me o jantar ou transportar-me pela hora de ponta, que me fazem sentir, verdadeiramente, em casa e feliz.

Comentários

i disse…
Esta última foto ficou mesmo gira.
E é claro que estás imigras, mas isso até tem graça.
Sim, Lisboa é linda (cada vez acho mais), mas para matar saudades, só isso não chega, não é?
welcome back =)
Lolly disse…
:) lendo o teu texto até me senti uma espécie de super heroína, uma daquelas que conseguiram atravessar o longo caminho "desde os confins da linha de Cascais" lol *********** até aos santinhos xanetxi da minha vida!

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