Eu não!

Podia ter acontecido assim:

- Tenho uma ideia nova para vendermos móveis. Talvez seja um pouco radical mas tenho certeza que é genial!
- Então conta lá.
- Bem, primeiro, vamos deixar de fazer móveis bons e duradouros.
- Ah sim?
- Sim, sim, está claro. O que vai estar na berra são móveis com estilo mas qualidade que não ultrapasse os 2 anos. Assim as pessoas vêm à loja mais vezes para comprar móveis novos.
- Mas os móveis são caros, têm de ser duradouros!
- Ah mas os nossos móveis vão ser baratos. Os mais baratos do mercado! Como as lojas do chinês.
- Ahhh! Pode funcionar…
- Sim, mas para funcionar também é preciso mudar o ponto de venda, fazer uma coisa estilo armazém.
- Estilo armazém?
- Sim, um espaço grande e fora da cidade. Num ponto com pouca acessibilidade. Só para quem tem carro. Ah e os móveis não estão em exposição!
- Os móveis não estão em exposição?
- Não, não estão. Mete-se uns cenários das divisões da casa, que vão ficar desgastados e feios com o tempo e os clientes a passarem e a mexerem. Ah e não podem passar ao rumo do seu livre arbítrio. Nada de liberdades! Entram por um lado, seguem uma espécie de rota e saem por outro.
- E como é que as pessoas ficam a conhecer a oferta de móveis?
- Além dos cenários expostos na loja, haverá catálogos daquela publicidade que toda a gente deita fora no primeiro balde do lixo e informação num site.
- Bem, está bem. Dizem que as novas tecnologias são o futuro… Mas então e o vendedor vai fazer de guia?
- Ah esse é outro detalhe, não há vendedor.
- Como assim não há vendedor?
- Não há vendedor. Não damos atendimento personalizado a ninguém. Cada cliente leva um bloquinho de notas e uma caneta e escreve as referências dos produtos que lhe interessam.
- Ah muito bem e depois deixam-nos as referências e nós enviamos a mobília ao domicílio.
- Não, não, nós não enviamos nada. Depois o cliente confronta-se com um armazém, em pleno sentido do termo, feio e frio, cheio de prateleiras com números e os produtos desmontados e embrulhados. De modo que não pode ver quais são, a não ser pela referência. E se estiver num dia de sorte pode ser que a cama que procura não esteja na última prateleira.
- Ah … e então depois do labirinto do armazém e o sobe e desce nas prateleiras, enviamos o móvel a casa?
- Mas que insistência nos envios ao domicílio! Já disse que não se envia nada. Cada um que carregue a sua mobília. E que, carregado, se dirija para a caixa, onde o aguardará uma fila interminável, estilo supermercado. Depois arranja maneira de enfiar os móveis dentro do seu carro feito para estacionar facilmente na cidade et voilá, leva a compra para casa. Provavelmente vai ter de ir com o porta bagagens aberto ou metade do pacote a cobrir parcialmente o vidro da frente, mas isso já não é problema nosso.
- E suponho então que também não ajudamos a transportar o móvel para dentro de casa.
- Absolutamente correcto. Já vai tudo desmontado para haver uma maior probabilidade de caber nas portas estreitas e nos elevadores apertados. E se não paciência. Subir escadas só ajuda a fortalecer os glúteos!
- Mas quem é que vai, efectivamente, montar o móvel?
- O próprio cliente. Com o auxílio de um entediante livro de instruções, escrito com vocabulário técnico. É uma excelente oportunidade para se soltar o artesão que existe em cada um de nós!
- Hum… estou a ver…

Então vamos a ver nós também:
Quem é que no seu perfeito juízo, teria sido capaz de comprar o IKEA?

Comentários

Camila Ciberi disse…
Depoi de seu post, procurei o que poderia ser o IKEA. Realmente, as coisas são bem baratas por lá, mas duvido que são mais do que algumas lojas do Brasil! E elas ainda têm os produtos expostos e um vendedor para te dar toda atenção do mundo!! :D

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