Chegou a Carolina

Há não muito tempo atrás, andávamos por aí a rir nos cantos.
Íamos ver os jogos de futebol dos rapazes e descíamos as escadas de cócoras, para o vizinho não nos ver.
Tínhamos jogos de basket todos os fins-de-semana e treinos depois das aulas. Escrevíamos bilhetes de amor e descíamos os rápidos da Ilha Mágica. Ela tinha medo e gritava. Mas depois queria andar outra vez.

Trocavam-nos os nomes. Como se fossemos gémeas. Diziam que era por sermos as duas grandes. Como toda a gente que chama torre Eiffel à estátua da Liberdade e Estátua da Liberdade à torre Eiffel. Porque são as duas grandes!
Ela ainda era mais alta que eu e, embora não parecesse, um ano mais nova. Esquecia-me disso frequentemente, como as mais velhas que nós se esqueciam que eram mais velhas.
Agradavam-lhe as fotografias a preto e branco e nunca tinha borbulhas, só uma esporadicamente, quando lhe aparecia o período. Doía-lhe muito, não a borbulha, a barriga e as costas. Lembro-me que ficava de cama.
E lembro-me que via mal ao longe, mas era feliz mesmo assim!

Íamos para a ilha nas férias grandes e um Verão fomos acampar. Queríamos levar o secador. Partilhámos a tenda, mais que isso, montámo-la as duas! Ainda estamos para saber como é que não caiu. Às 9 da manhã fomos acordadas ao mesmo tempo, pela melódica voz dos agentes policias “Bom dia senhores campistas! Não podem acampar aqui!”.
Adorava os sobrinhos e cada vez que falava deles vinha-lhe aquele brilhozinho nos olhos.
As meias noites do último dia do ano, passámo-las juntas, todas juntas, 1,2,3,4 vezes!
Comíamos muito ao lanche (éramos grandes)!

Depois começámos a comer menos, deixámos de jogar basket na mesma equipa e achámos que isso dos acampamentos em locais proibidos não era para nós.
Os jogos de futebol dos rapazes perderam o interesse, porque os rapazes interessantes passaram a ser outros.
Muito antes da Carla Bruni quebrar o tabu e pôr a coisa de moda, já ela tinha um namorado mais baixo, o que mostra bem o seu espírito corajoso e vanguardista.

Um dia eu fui-me embora. Voltava de vez em quando, mas esses anos antes dos 18 não voltavam comigo. E os que vieram depois foram-me levando cada vez para mais longe…
De repente, já tínhamos as duas carro! Mas, na maioria das vezes, guiávamos por estradas diferentes e em direcções que não se cruzavam.

De vez em quando ainda nos trocam os nomes. E eu sorrio, como tenho certeza que ela também faz.
E mais de repente ainda, desde ontem, apareceu alguém que lhe vai chamar um nome bem diferente do meu e do dela. Diferente de todos os nomes registados e, ao mesmo tempo, o nome mais comum do mundo.
Mãe.
E eu serei uma das “tias”. A que compra os chocolates e oferece os vestidos pipi!

Agora é que somos mesmo grandes…

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