Em Barcelona não há feias!

Tentando ignorar a minha urticária aguda com picos, descrita e documentada extensivamente no post anterior, embrenhei-me pelos blogs vizinhos. E inspirada por http://opontodoi.blogspot.com/2009/07/os-misterios-da-fealdade.html e por http://margemdeerro.blogspot.com/2009/07/venga.html , fiz eu mesma uma reflexão conjugando a suposta beleza de uma pessoa e as expressões multiculturais.

Eu ficava feliz quando me chamavam “guapa”. Sentia-me confiante. Era a guapa das guapas com tantas vezes que o ouvia, e todas num mesmo dia, a cada dia!

Pouco a pouco, fui-me apercebendo que em Barcelona é muito difícil e extremamente improvável ser feia. Chamam “guapa” por tudo e por nada, a todas as raparigas.
“Vale guapa” Gracias guapa” Hola guapa” “Adiós guapa” Qué tal guapa?” são só alguns exemplos que comprovam como 5 em cada 10 frases têm de acabar a dizer que alguém é “guapa”.

Senti que todos os “guapa” que tinha escutado até então se esvaziavam a meus pés. Eu ser “guapa” não passava de uma mera necessidade filológica destes falantes de espanhol.
Foi outra vez aquela sensação de quando vi o meu pai a perder uma corrida com a minha irmã, que na altura tinha 3 anos, e percebi que todas as minhas vitórias em velocidade não tinham sido mais que um grande embuste.

Hoje, enquanto esperava na sala de urgências do hospital, ouvi ao longe alguém dizer “Hola guapa”. Girei a cabeça lentamente, receosa da cruel verdade que iria encontrar mas, ao mesmo tempo, decidida a confirmar de uma vez por todas a minha teoria sobre “las guapas”.
Lá estava a “guapa”, sentada numa cadeira de rodas, prostrada no auge dos seus 80 anos, débil e abatida.
Ainda eu não me tinha recuperado do choque, quando ouço um “Qué le pasa reina?”
No mínimo, passava-lhe que já tinha perdido toda a majestade que algum dia poderá ter tido.
E para que não me restassem dúvidas , a senhora à minha frente disse ao idoso que acompanhava “Ahora vengo nén” . (“Nén” é a palavra catalã para criança).

Já se sabe. Há que encarar os elogios com a devida medida e proporção. No fim, são só palavras que não custam nada a dizer e valem ainda menos.

Mas se, inocentemente, fizerem alguém mais feliz, porque não?

Comentários

i disse…
hahahaha acho isso querido da parte dos barcelonenses! (sim, pq a mim ja nao me apanham a dizer "espanhóis", não vá o diabo tece-las!)

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