A infiltrada

Ali estava eu. Os lábios comprimidos com força para não soltar um esfuziante “Kakààà”. Também conhecido como o “puto mierdas ese que es muy bueno coño!” pelos adeptos do “Mágico Espanyol”.



Afinal, em Barcelona nem toda a gente é do Barça. Há pelo menos 39.000 pessoas que são do Real Club Esportiu Espanyol. Eu estava contada entre elas, sobre o nome de Adrià Rollan.
Claro que o senhor que controla a entrada deu pelo facto de eu não ser o Adrià Rollan. Olhou o cartão de sócio, olhou para mim. Eu olhei para ele com a frieza de uma autêntica Mata-Hari. Por segundos, quase que até eu acreditei ser o Adría Rollan 1m85 com barba.
Mas não. Era uma luso-brasileira simpatizante do Barcelona no campo do rival directo da Catalunha e ansiosa por ver as estrelas da equipa adversária, nomeadamente, o Cristiano Ronaldo e o dito Kakà. E mais, não estava simplesmente no campo do Espanyol estava na bancada dos ultras! Aquela bancada por onde descem os panos gigantes com o logo do club para as câmaras da televisão fazerem grandes planos. Eu estava aí em baixo.

Em vez de me dizer porta 140 sector 9 fila 5 lugar 4, bem que o Adriá Rollá podia ter dito que era nos lugares onde estão as pessoas que levam tambores e que nunca se sentam e nunca se calam. Só no intervalo. Dois lugares ao lado e poderia ter visto o jogo com a mesma emoção e o conforto de uma posição de descanso. Claro que não ia ter uma bandeira gigante abanando-se à minha frente na iminência de me cortar a cabeça, mas o perigo de ser decapitada por um remate ao lado ter-se ia mantido (posto que a fila 5 é a apenas a duas filas do campo, por de trás da baliza). Portanto, a verdadeira emoção e os insinuantes perigos de uma espiã camuflada nas trincheiras do inimigo.

Verdade seja dita, não me esforcei muito para a camuflagem. Eles diziam que quem saltasse era “blau grana” e eu não saltava, eles diziam que preferiam morrer do que ser do Barça e eu calava. Tão pouco me coibi de fotografar freneticamente os merengues mais famosos, ainda que tentasse ser discreta.
Era evidente que eu não colava nada ali. Tentei torcer pelo Espanyol mas o Real também foi mais forte do que eu. Que jogadas, que jogadores!
"AAAh" bolas que desta vez foi quase e eu la punha aquela cara de "que pena que o Espanyol não marcou". Claro que intimamente sentia muito menos pena, aliás, melhor assim, que se eles marcassem o mais provável era eu ser engolida na histeria da multidão e ter que dar abraços a desconhecidos (alguns sem t-shirt)!
Contive-me apenas o suficiente para não ofender ninguém e poder sair do estádio em condições de escrever este post.
Mas quando o Casilhas assumiu a baliza a poucos metros do lugar onde eu esta em pé, as minhas entranhas palpitaram tão aceleradamente que não consegui engolir o suspiro. (Tive que simular um espirro).



O Espanyol perdeu 3-0, sem surpresas.
Mas o calor do Estádio novo, que recebia o seu primeiro jogo, e a paixão ferrenha daqueles adeptos, fazem jus à alcunha do clube, criando um ambiente verdadeiramente “Mágico”.

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