O dia em que o chefe a chamou

Quando o chefe pediu para conversarem ela não suspeitou de nada. A sala de reuniões estava ocupada pelo que se intrometeu o convencional “queres um café?” antes da conversa. Sim, era normal, eles estão sempre todos a beber café. Na cozinha estava o dos músculos e das dietas de hidratos de carbono a comer uma pratada de massa às 10.30 da manhã. Diz que lhe dá um prazer tremendo e que se tem de controlar até ao último apelo do estômago no Verão. Porque é quando deixa de ir ao ginásio. Agora que voltou à sua actividade física pode finalmente resgatar o delicioso hábito de comer doses generosas de esparguete ou de arroz a meio da manhã. Quando o resto das pessoas come uma sandes ou, precisamente, bebe um café.
“Mas tu participas em competições ou isso é só para exibir?” – perguntou o chefe .
“Não, não, eu faço isto por mim!” – respondeu ele, orgulhoso e não altruísta.
È justo, eu por mim compro chocolates ou, desde a intoxicação alimentar com a Nutella, latas de leite condensado para comer à colher.
Entretanto, o chefe tinha pousado as folhas numa mesa, com especial atenção para que ficassem viradas para baixo, ocultando o seu conteúdo. Então ela começou a ficar receosa. Porque será que ele não queria que ela visse as folhas?
A sala de reuniões continuava ocupada e o chefe considerou que a cozinha não era confidencial o suficiente. Dirigiram-se a outra divisão, mais recatada. Por essa altura começaram-lhe a escorrer alguns suores frios.
“Então como é que vai o trabalho?” – inquiriu o chefe. Os olhos fixados nela, dissipando-se das palavras, como se aquela pergunta fosse só um or d’oeuvre para uma enorme repreensão. Aqui os suores já lhe escorriam por todo o lado. O que é que ela tinha feito? Seria por utilizar a internet durante o expediente? Ou seria pelas fotocópias? É que no novo open space ela ainda não tinha imprimido nada mas no antigo imprimiu as aventuras completas do Sherlock Holmes!
“Vai bem” – respondeu ela, com um sorriso trémulo e, no entanto, o mais confiante que os seus lábios conseguiram esboçar.
O chefe sorriu-lhe de volta, já estava à espera daquela resposta. Olhou para o molhe de folhas e hesitou um momento. Era agora! Era agora! O que quer que fosse ia ser naquele instante.
E então ela viu. Viu para pasmo e gáudio em simultâneo e paralelo, folhas da Universidade.
“Tenho que fazer estes exercícios para o mestrado mas não sei como é que se faz, tens de me ajudar!”. Ufa! As fotocópias do Sherlock Holmes continuavam no anonimato!
Desta vez os seus lábios contraíram-se num imenso esganar misto de riso e surpresa, que por limitações técnicas das onomatopeias não me é possível reproduzir aqui.
Ali estava ela, recuperando lentamente a tez do rosto, com o chefe diante de si, suplicando que o deixasse copiar um trabalho do mestrado. E depois perguntou:
“Mas o quê? Pensavas que era alguma coisa de mal?”

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