"Sentido de Comunidade"

Um ex profesor meu da universidade de Siena está fascinado com o “Sense of community” da Purdue University em Idiana – EUA, onde se encontra actualmente.
Diz que os professores lhe fizeram uma recepção pessoal, que há encontros e saídas semanais entre todos os alunos para “construir equipa” e que os estudantes americanos contribuem largamente para a integração dos estudantes estrangeiros.
Tudo muito bonito até ele mencionar que em Itália, nomeadamente em Siena, não seria assim.

SCUSA??? MA CHE CAZ**** DICI?

Quando o seu companheiro de quarto chinês lhe perguntar “O que é que queres que eu te roube do supermercado?”, como o meu room mate espanhol fazia, então sim, ele vai ter argumentos válidos para discutir a noção de comunidade no ambiente universitário de Siena.
Onde nos encontrávamos todos os dias e todas as noites e cada vez reagíamos com tanta felicidade como se não nos víssemos há anos. Sabíamos os nomes e nacionalidades de centenas de pessoas e, todos juntos, fazíamos viagens a sítios tão interessantes como Urbino. (Exactamente, o ponto é nunca ninguém ter ouvido falar de tal coisa).
Levava-se a casa quem já não se aguentasse em pé e convidava-se para jantar quando não cabia mais ninguém no T3 alugado e partilhado com 5.
Comunidade era fazer festas surpresa e chorar quando alguém se ia embora.
Comunidade é, passados 3 anos, continuar a saber os nomes e as nacionalidades dessas pessoas e lembrar todos os momentos com tanta claridade como se tivesse sido ontem.

E em relação ao suposto apartheid italianos – estudantes estrangeiros, eu não sei que raio de colegas é que ele teve mas os meus sempre me ajudaram com apontamentos e explicações e não se coibiram nada de me convidar para participar em eventos e projectos. Eu fui a actriz principal de um vídeo para a escola de Jazz de Siena!
E diciamoci la verità, não há espécie mais calorosa, acolhedora e ardentemente desejosa de proximidade que il ragazzo italiano!

Professores distantes? O Professor mais respeitado da Universidade dava-nos conselhos sobre a nossa vida amorosa, vinha jantar connosco e convidava-nos para debates em sua casa. E falava mal do Berlusconi nas aulas a cada 5 minutos.

Ele diz que na Purdue toda a gente compra a blusa da Universidade e que ele mesmo vai comprá-la e usá-la até a exaustão enquanto lá estiver. Para depois, no regresso a Itália, a abandonar numa gaveta escondida lá de casa.
Eu comprei uma blusa cor de rosa da Universidade de Siena e nunca a encafuei em nenhum móvel poeirento. Levei-a comigo para São Paulo, mantive-a no armário em Lisboa e, neste preciso momento, levo-a vestida pelo segundo Inverno consecutivo em Barcelona.
Evidentemente que já tem borboto, mas o orgulho ultrapassa a decadência têxtil.
Porque é um sentimento!
O sentimento de ter feito parte de uma verdadeira comunidade.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O síndrome de Bridget Jones

Já cá estou outra vez, desculpem a demora...

Aproveito o 8 de Março para dizer que as mulheres deviam ganhar mais do que os homens