2ª Crónica de Natal

O pinheiro artificial


- Ah muito bem, está muito bonito, não vai durar uma semana, mas pronto…
- Vai sim senhor! Está atado à porta!
Pfff… só me faltava, o da contabilidade a agoirar a minha decoração de Natal. Não que o pragmatismo das vivencias catalãs não lhe confira algum fundamento, até posters já nos roubaram de dentro do bar, mas falta-lhe sensibilidade. A sensibilidade de entender que com os pinheirinhos artificias empinocados de lacinhos dourados que o Ayuntamento plantou ao longo das ruas (e sem qualquer protecção anti-furto), a suceder um roubo, é um daqueles que vai. Não o nosso, meio tosco e sem luzinhas. Está fora do bar, sim, mas atado à porta com 3 nós!
E depois, com o frenesim constante de entra e sai e os dos flyers sempre ali, como é que alguém pode levar o nosso pinheiro de Natal e passar despercebido? É que ele é artificial mas tem presença! E pesa!
Não, impossível.
E estando eu irremovível das minhas convicções, o pinheiro ali ficou, do lado de fora do bar, atado à porta, debaixo do show incadescente de luzinhas amarelas e intermitentes.
Os dias passaram e tive o prazer de confirmar que a minha teoria se comprovava. O Pinheiro perdurava. Quase que ia jurar que as folhas de plástico até estavam mais verdes!
Olhava-o de dia com orgulho, despedia-me dele sorrindo, já de noite.
Até uma noite em que o olhei ,segura de que ele estaria ali e, no entanto, só a base permanecia. Atada à porta.
Não, não pode ser! Não! Não! NÃÃÃÃOOOO! Mas era mesmo.
E olhem que sem a base aquilo nem se aguenta em pé!
- Desculpa lá, tu por acaso não viste ninguém a passar com a nossa árvore de Natal debaixo do braço, não? – perguntei, num pânico miudinho, à distribuidora de flyers.
- Ah vi sim, foi um rapaz, vem cá às vezes, foi por ali. Foi durante a tarde…
O QUÊ??? TU VISTE??? TU VISTE E NÃO FIZESTE NADA???
Oh Meu Deus, como é que é possível? Pelo menos podias ter avisado alguém!
Olhei-a incrédula, com vontade de esganá-la, mas o mix de raiva e frustração inibia qualquer movimento ou palavra. Ela pôs-se logo a pedir desculpas, com grande pesar. Como se o seu grave arrependimento servisse de alguma coisa agora que já estávamos “desarvorados”. Porque é que ela não gritou? Nós raparigas temos espasmos histéricos a toda a hora, pela mais insignificante razão. Alguém a passar com o nosso pinheiro de natal debaixo do braço parece-me um motivo de extrema validade para bradar energicamente! Esbravejar! Rugir! Vociferar! Nada… pois se calhar achou que ninguém ia reparar.
No fim, nem sei o que foi que me irritou mais. Se esta passividade estúpida da rapariga dos flyers. Se o ridículo de roubarem o nosso pinheiro (e ainda por cima deixarem a base)com a panóplia de pinheiros muito mais bonitos a cada metro e meio de rua.
Ou se o facto de que, afinal, o “insensível” da contabilidade tinha razão. E eu não.
Porque, na verdade, uma parte de mim ainda acreditava nessas balelas do espírito de natalício e de alguma decência e bondade em todas as pessoas.
Ahhh mas agora já não! A mim não me enganam mais!

Porque eu agora já só acredito no Pai Natal.

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