Primeira Crónica de Natal

Este Natal decidi fazer uma compilação das melhores demonstrações, momentos ou alusões ao delicioso espírito que marca esta quadra.
Pequenas coisas que, no mínimo, nos fazem entender o quão as pessoas se estão realmente borrifando para o nascimento de Jesus.

O Natal nos autocarros

Entrei no autocarro. Senti logo um cheiro pútrido a substancias pouco poéticas. Olhei ao redor, mentira, bastou olhar para a frente e lá estava ele, o Big bang daquela emanação odora. A barba por fazer, o cabelo pouco cuidado (eufemismo), glicose a mais e camisa de manga regata. È verdade. O senhor da meteorologia disse que ia estar uma temperatura agradável. Mas se formos a ver, -10 graus é uma temperatura agradável no Alasca, daí a relatividade do termo. Pelo que a manga regata era um exagero de agradabilidade, na minha opinião. Se bem que nos autocarros, por esta altura do Natal, eles gostam de fingir que Barcelona, quase nos Pirenéus, é na verdade um país tropical.
Mas algo apelava à condescendência naquela criatura meio Shrek meio homem: uma cadeira de rodas. O senhor mal cheiroso não tinha pernas. O que me fez muito mais complacente e atenuou o facto de eu não me poder encostar a ler no lugar espaçoso e confortável, destinado aos inválidos de cadeira de rodas.
Estava então tudo muito atenuado, menos o cheiro, até que o senhor da cadeira de rodas começou a bradar para a motorista, perguntando rudemente se ele descia na próxima paragem. “Onde é que o senhor quer ir?”. Então ela não sabia a (palavrão) n se lembrava onde é que ele queria ir. Como se atreve (palavrão)?
Assomou-se à porta resmungando. Já lá estava um senhor que também descia na próxima pargem. “Sai daí, sai daí que a rampa vai descer”. E o senhor explicou que também ia descer. Ora isso lá importava alguma coisa! “ Não ouviste? A rampa vai descer! Sai, sai que eu quero passar! Ai que ele é palavrão, palavrão, palavrão”.Não, o senhor não estava a obstruir a passagem da cadeira rodas, estava só bem posicionado para sair e fitava agora o bonito tecto branco do autocarro, sentindo-se desconfortável. Para gáudio de uma senhora idosa que ria às gargalhadas na primeira fila de bancos, só lhe faltavam as pipocas. Mas o da cadeira de rodas era incansável, desatou à carga contra as pernas do senhor que fitava o tecto do autocarro. Nisto, a bendita rampa desceu, a porta abriu e o sem pernas lá foi desvairado, porque vinha com o balanço de estar a empurra o com pernas. Despistou-se no meio da rampa. Tronco para um lado, cadeira para outro. “OOOOOOOOOOOH” fez o autocarro, em choque. Mas só uma pessoa desceu para o ajudar, mais a santa da motorista que parou o transporte público para ir perguntar ao senhor que tinha insultado a mãe dela, se precisava de ajuda. Não, não precisava nada de ajuda de ninguém, estava a ver sangue ela? Não havia sangue, não precisava de ajuda! Ela que se fosse embora e o deixasse sozinho (palavrão). E sozinho ficou, como se fosse um pequeno arbusto enraizado no passeio, atraindo a curiosidade dos transeuntes.
Eu? Eu não desci para ajudar. Embora esse tenha sido o meu primeiro impulso. Mas depois para quê? Para ser inspiração de mais palavrão? E de qualquer maneira sozinha também não tinha como recolocá-lo na cadeira, já vos comentei ali mais acima o excesso de glicose.
O 59 segui o seu caminho e a motorista, nitidamente a única com alguma preocupação para com o menino Jesus e os reis magos, ainda ligou à central . Para mandarem alguém, que o coitado do senhor caiu e ela não ficava descansada.
E aí estalou a voz da idosa das pipocas “Esteja calada que não sabe do que é que está a falar. Que ele estava a querer arranjar confusão é verdade. Mas não disse que ia chamar a polícia, tão não ouviu que ele não queria que se chamasse ninguém?”
“Eu digo o que eu quiser! Cale-se você que você é que começou!”
“Eu é que comecei? Você é que começou aí a falar do que não sabe! Mentirosa!”
“Zorraaaa!” Não, zorra não é a mulher do zorro, zorra também é palavrão!
O feliz natal este ano que se ponha a pau com o palavrão, pensava eu, olhando disfarçadamente para o lado. Ora bem, não chegava a tragicomédia do despiste do sem pernas mal cheiroso e de vocabulário duvidoso, agora tínhamos luta de galinhas velhas.
O surrealismo de toda aquela cena começou a atentar ferozmente contra a sobriedade dos meus lábios. Sem querer, cruzei o olhar com uma senhora que ia lá mais atrás. Ela sorriu cumplicemente e disse-me, com um piscar de olho, como se tivesse lido os meus pensamentos:
“É o espírito natalício!”

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