Exactamente quando é que deixamos de ser criativos?

Parte 1


Parte 2


Para quem não tem tempo de ver os vídeos, um resumo das ideias do Ken Robison mas sem metade da piada que ele tem a expô-las.

“Quem não está preparado para errar nunca vai inventar nada original”
“Todos os sistemas de ensino têm a mesma hierarquia: línguas e matemáticas, depois ciências humanas e no fundo as artes e o desporto. “
“A questão da criatividade devia ser tão importante como a literacia”
“Porque é que não ensinamos dança às crianças todos os dias, como lhes ensinamos matemática?”
“Todas as crianças nascem artistas o difícil é continuarem artistas depois de crescerem”
“Educamos as crianças da cintura para cima e mesmo sabendo que elas é que são o futuro e que têm uma tremenda capacidade de inovação, arrancamo-la de modo cruel.”
“Se um ET chegasse à terra e tivesse que definir o propósito da educação pública diria que é a formação de professores universitários”
“Os professores universitários vêm os seus corpos como uma forma de transporte da cabeça… para ir às reuniões!”


Eu até tive sorte. Gosto de línguas, tenho jeito para línguas. E isso é sempre bem visto e altamente valorado e considerado nos sistemas académicos.
Mas não é por isso que eu gosto. Eu gosto pela possibilidade de brincar com as palavras, jogar com os sentidos, rimar as frases entre si. Inventar coisas, pessoas, nomes, sentimentos e o modo como vamos contar tudo o que acabámos de inventar. Como brincar com plasticina quando o mundo nos aborrece. Porque o mundo assim, tal qual, é uma grande seca na maioria das fases lunares.
O aproveitamento académico sempre foi bom, acima da média. Não era um génio disfarçado de dislexia nem um artista em potencial condenado ao síndrome de falta de atenção.
Mas odiava matemática! Por uma razão simples: a monogamia de resultados. Só um é que podia estar certo. Não havia nada para inventar. E quando eu inventava um bocadinho no modo de chegar a esse resultado dogmático, perguntavam-me “porquê”? Porque é que fazes da maneira mais complicada e dás tantas voltas se podias fazer assim?
Gostaria de dizer que era devido à minha imaginação irreverente e obstinada que tentava dominar todas as disciplinas, por mais hercúlea que essa tarefa pudesse ser. Mas não era nada disso! Era só porque não tinha reparado que dava para fazer de uma maneira mais simples. Imagine-se se eu ia perder 10 minutos a fazer um exercício de matemática, sabendo que podia perder só 5!
Também gostava de desenhar. Até aos 10 anos. Que foi quando comecei a ter educação visual. O suplício que era, todos os anos, ter de desenhar na capa para guardar os desenhos, as letras do meu nome, de forma simétrica, todas com o mesmo tamanho, largura e igual distancia entre si. A-L-E-X-A-N-D-R-A são 9 letras, NOVE! Mais 6 do sobrenome com um trema numa delas. Levava semanas só para conseguir fazer o X, como é que eu poderia ter vontade de desenhar alguma coisa a seguir a esta odisseia? E a raiva das ineses anas e ritas? 3 a 4 letras e nem um único X!
Bem, com o desporto já me entendia melhor do que com a régua e o esquadro, sem falar no compasso, que ainda hoje não entendo. Fiz muito desporto, extra-curricular claro.
Também dancei bastante, do ballet ao corridinho do Algarve! Ainda danço. Porque a dança é toda uma outra língua, sem vírgulas nem pontos finais. Um parêntesis com reticencias de possibilidades infinitas para nos expressarmos.
Se bem que o que eu gosto mais é de dançar com as ideias e depois coreografar as palavras. Uma professora da Universidade disse-me que eu escrevia mal. Foi num exame de sistémica. Comecei uma resposta a falar sobre os dinossauros. Pareceu-me a apoteose da originalidade, a genialidade de todas as conexões sistémicas e não sistémicas. Ela não concordou. Tive que ir a exame. Foi por essa altura que comecei a deixar de perguntar e a calar as minhas intervenções.
Até à universidade eu era aquela aluna ligeiramente irritante, que só está contente se estiver com o braço no ar e que os professores têm de proibir de falar. Para dar oportunidade aos outros ou tão somente para poder dar a matéria até ao fim.
Mas a universidade deu-me esse temível medo de errar. E não me deu um bom contrato de trabalho. Porque os meus pais não me obrigaram a ir para medicina nem engenharia. Porque isso seria como ter de desenhar 1.000 Xs simétricos por dia.
Porque os meus pais sempre estimularam de todas as formas a minha criatividade. São uns aficionados das actividades extra-curriculares! Incentivaram ao máximo o meu lado não académico. (E não sabiam que eu ia ter sistémica no curso de ciências da comunicação).
O mais curioso, e algo paradoxal , é que os meus pais, esses mecenas do meu desenvolvimento da cintura para cima e para baixo, são, os dois, professores universitários.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O síndrome de Bridget Jones

Já cá estou outra vez, desculpem a demora...

Aproveito o 8 de Março para dizer que as mulheres deviam ganhar mais do que os homens