Quem disse que as reuniões de trabalho são uma seca?

Estamos em crise. Não obstante, a cada segunda-feira o meu chefe chega anunciando a abertura de um novo negócio. Desta feita é um restaurante. O restaurante já existe, um bistro catalão com cozinha mediterrânea. Coisa fina.
O meu chefe quer transformá-lo num american dinner com take away.
O negocio não está ao rubro e nós vamos entrar para ressuscitar os lucros. Ninguém vai investir porque ninguém tem dinheiro. O que, à primeira vista, já me parece um obstáculo à compra de embalagens e sacos para o take-away. Sem falar na mudança do letreiro da entrada, nos novos menus, materiais promocionais, etc. Naaa, com certeza será tudo roubado porque ninguém vai gastar “ni un duro!”.
Então hoje tivemos uma reunião. O dono e chef do restaurante, eu e o meu próprio chefe.
O dono do restaurante não quer “clientela de baixa qualidade”, quer gente que gasta 30€ numa refeição. O meu chefe quer aqueles viajantes de mochila às costas, que compram um hambúrguer por 3€ e se sentam no passeio a come-lo. E quer que esteja aberto até à meia-noite. O outro diz que não, que depois das 11 só há bêbedos na rua e não os quer no restaurante a arrotar cerveja barata para cima dos que gastaram 30€ (só no vinho de reserva)!
Tudo indica que vamos precisar de um corredor e uma parte do balcão só para o take away. (No mínimo!). Trata-se de rearranjar as mesas de modo a criar um subtil apartheid entre os clientes de 30€ e os clientes de 30€ a dividir por 10. E depois um sofá com uma mesinha de espera na entrada. Mas não, ninguém vai entrar em despesas!
O meu chefe sugere tacos, burritos, galinha tikka masala, fish and chips e batatas fritas para levar. O chef não abdica do seu pão com tomate, do lombo de salmão com champanhe nem do paté de javali com amoras. Também teme que os hambúrgueres difamem o seu mais que tudo, o confit de pato no forno com maçã e cognac.
O nome é outra querela dominante. Ryans café vs Ryans bistro. E se for Ryans Bistro Café? Já que o confit de pato vais estar no menu entre o full irish breakfast, as fajitas e o fish and chips, não vejo porque não.
O ponto dominante da discórdia é quanto tempo se leva a preparar 20 hambúrgueres. O meu chefe diz que é rápido, porque já vai estar tudo preparado. Ele imagina uma cadeia de montagem fordista com queijo fundido, pão de semente, carne e rodelas de cebola. O chef, o único dos 3 com experiência real em cozinha, diz que as coisas bem feitas levam tempo, que mesmo com tudo pronto nunca vai ser rápido e remata afirmando que não quer vender hambúrgueres ranhosos! Ou lá se vai a reputação do confit de pato no forno com maçã e cognac!
Há apenas uma coisa em que os dois estão em mutua anuência: quem vai fazer com que o conceito (qual conceito???) funcione, sou eu. É lógico. Porque eu só tenho sob a minha alçada comunicativa 2 bares irlandeses, um bar na praia a abrir no final deste mês e um salão de beleza. O que me deixa livre como um confit de pato para organizar e promover o michelin/mc donalds. E sem ganhar nem o tal duro a mais, porque , repito, aqui ninguém vai gastar dinheiro, sabemos todos fazer milagres.
(Eles também estão em consonância neste ponto.)
Mas enfim, eu gosto é disto!
E se há coisa de que não me posso queixar, é de não me divertir nas minhas reuniões de trabalho!

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