Um amor proibido

Todos queríamos ser jornalistas. Porque o jornalista é uma espécie de super herói anónimo com queda para as letras.
Queríamos contar o mundo ao mundo! Denunciá-lo, em alguns casos.
Sim, tínhamos o desejo prepotente de ser executadores do tão almejado Quarto Poder. De vigiar o Estado, proteger os cidadãos e traçar uma linha de comunicação clara e transparente entre ambos. Tal como nos pregaram na faculdade!
E, de vez em quando, receber entradas grátis para as antestreias do cinema.
Mas um a um, lentamente, fomos desistindo.
Porque afinal o jornalismo é publicidade dissimulada. Um rol de anúncios enviados pelas agencias de comunicação. Tenho provas: assessoria de imprensa e clipping são profissões.
Claro que o jornalismo não se resume a anúncios das agencias. Porque os meios de comunicação têm donos e os donos têm interesses próprios. Então o jornalismo transforma-se numa passerelle de lobbys com design de ferramenta de instrumentalização política. Ou então num trasnformador da realidade concebido para aumentar vendas e audiencias.
E de repente, quando um dá por si a escrever maravilhas sobre o lançamento dos novos caramelos com recheio de café( um “delicioso” contributo nulo à formação da opinião pública) rompe-se-lhe a ilusão. Como se tivéssemos descoberto que o amor da nossa vida nos tinha traído.
A verdade é que ele já nos tratava mal e a relação não era saudável.
Não podem haver contratos porque há tantos aspirantes a jornalista necessitados de um estágio que toda a gente acaba por trabalhar de graça. Ou com o salário mínimo nos casos em que, milagrosamente, “se fica”. Mas sempre sem contrato, porque os compromissos sérios são coisa do passado.
Aliás, num futuro próximo, eu acredito que não só não vão pagar, como ainda vão cobrar aos estagiários de jornalismo para trabalharem nos meios de comunicação. Já estou mesmo a ver “Vendemos Estágios”, escarrapachado algures entre a necrologia e as páginas de anúncios com fotos pouco católicas.
Foi assim, de coração partido, imigrada e convertida ao outro lado da comunicação, que comecei a ler as crónicas do Mário Crespo.
Uaaaaau! Não tinha ideia de que ainda se podiam publicar este tipo de coisas. Que objectividade, que transparência, que coragem!
Então voltaram as boas recordações, a memória daquela paixão tão intensa, aquele desejo tão certo de que era assim que queria passar o resto da minha vida. Nostalgia e esperança ao mesmo tempo. Vontade de me ter enganado, de não ter sido enganada.
Não, o Mário Crespo não vai resolver o problema da exploração indevida de recém-licenciados em comunicação nem conseguir salários condignos para os jornalistas.
Mas parece estar a ressuscitar o jornalismo do seu estado vegetativo e inerte.
Pelo menos a mim já me fez voltar a acreditar!Talvez lhe dê outra oportunidade.
Afinal, pode ser que ainda sobre uma réstia de força e dignidade ao Quarto Poder.

Comentários

Rui Coelho disse…
É quase tão difícil ser-se jornalista como, sendo jornalistas, fazermos jornalismo - geralmente é outra coisa qualquer. Pessoas como o mário crespo sabem disto e arrancam em contramão: é preciso segui-lo. ter lançado um livro dele hoje é que já me parece coisa pouco inocente, mas enfim, gostos.

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