Vocês não sabem o que eu vi!

Entrei na Starbucks da Calle Ferran, uma perpendicular da Rambla de Barcelona. Embora soubesse perfeitamente ao que ia, um chocolate pequeno e uma cookie de chocolate, pus-me a deliciar a “montra” onde, desavergonhadamente, os doces se exibem.
Havia os muffins de chocolate, os brownies de chocolate, a cookie de chocolate branco, as fatias de bolo de chocolate tamanho dor de barriga… e de repente vi-os! Ali! Eles estavam ali!
Dei um passo atrás, num pequeno sobressalto. Não, não pode ser. Abri amplamente os olhos, tentando fazer um zoom daquela imagem, só para ter certeza que eram mesmo eles.
Tanto podia ser que sim, eram mesmo eles. No cantinho da “montra”, meio desajeitados num pratinho improvisado, jaziam 4 pastéis de nata.
Imersos entrou os outros doces, parecia um daqueles jogos de crianças em que temos de encontrar o elemento dissonante de um determinado conjunto.
Findo o espanto inicial, um looping de sentimentos e argumentos contraditórios inibiu uma reacção imediata da minha parte.
Até agora não sei se devo ficar feliz pela exportação de um dos doces mais típicos e característicos do país, o que de algum modo certifica e acerba a sua qualidade , ou se me devo começar a preocupar com a perda de identidade do pastel de nata. É que no Brasil, já há uma cadeia de fast food árabe, de seu nome “Habibs”, que vende pastel de nata com kibes e pão pita (péssimo pastel de nata a propósito).
Eu sei que a Starbucks tem por norma variar a sua oferta de acordo com o país em que está presente e sei que Espanha e Portugal é tudo a mesma coisa para toda a gente, exceptuando para os espanhóis e os portugueses.
Mas espera lá, pastel de nata no Starbucks de Barcelona??? Tão não sabiam fazer “crema à ctalana”? É que assim qualquer dia o pastel de nata vai ser tão rodado pelo mundo como o brownie e o struddel de maçã (esses levianos!) que já ninguém sabe bem de onde é que eles são típicos.
Ou pior, como as lojas Starbucks têm um reconhecimento internacional consideravelmente maior que os cafés de Portugal, o pastel de nata pode vir a ficar conhecido como aquele doce estranho da Starbucks, que fica no cantinho da montra e não tem chocolate. Já estou mesmo a ver, o turista que veio a Barcelona, entrar nos Pastéis de Belém e pedir meia dúzia dos “pastéis estranhos da Starbucks”.
Isto, claro, contando que não são como os pastéis de nata do “Habibs” e fazem minimamente jus ao nome que carregam. Porque se não então já temos a imagem da pastelaria portuguesa denegrida de modo irreversível.
Bem, eu cá pedi a minha cookie de chocolate na mesma. Certamente que não vou comer pastéis de nata na Starbucks!
E da vez seguinte já não me apanharam, o meu olhar foi directo para aquele cantinho da montra e…lá estavam eles outra vez! Os maganos!

O que é que eu posso conluir?

Primeiro veio o Saramago, depois o Cristiano Ronaldo, agora chegam os pasteis de nata. E assim, com mestria e subtileza, Portugal vai conquistando a Espanha…

Comentários

Tracey disse…
ahah! e falta o simão sabrosa.

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