A encruzilhada de Peter Pan




Peter Pan vive na Terra do Nunca. Mas vai à escola e joga basket. É moreno, magro e mentiroso. (Como todas as crianças). Fica melhor de barba mas insiste em faze-la.
E vai voando por Barcelona, sim o Peter Pan é de Barcelona, ciente de que é o mais bonito de todos os príncipes sem cavalo.
Uma noite, enquanto sobrevoa a cidade, Peter Pan despista os olhos num vestido azul. Podiam ter sido os frutos exóticos das torres da Sagrada Família, que até já lhe chamam Carmen Miranda, mas foi mesmo num vestido azul, ou verde, não se sabe bem.
Muito lentamente, Peter Pan aproxima-se. Primeiro com os seus olhos de sonho, depois com o sorriso que faz covinhas. Até chegar tão perto do vestido azul que só há uma coisa a fazer: puxar-lhe o braço!

Wendy tinha notado o rapaz que caiu ali no meio, de repente, quando a noite já se parecia ter rendido às batidas daquela música inorgânica e aos rapazes aborrecidos de camisa e sapato. Wendy não gostava de rapazes de camisa e sapato…
E do nada mais que nada, iluminado por um foco de luz fluorescente, ali estava ele, Peter Pan. Mas ela não sabia quem ele era. Estava sem o chapéu verde com a pena vermelha, para evitar o assédio dos fãs.
Mesmo assim, destacava-se dos demais. Talvez por ser mais alto, talvez por ser mais bonito. Para a Wendy foi porque estava de sapatilhas em vez de sapatos e uma camisa branca que não era camisa. E porque fazia covinhas quando se ria para ela.
Sente-o puxar-lhe o braço e deixa-se ir. Até que enfim! Já estava a ficar cansada de esperar em pé.
Então Wendy descobre que Peter Pan gosta de ler e Peter Pan descobre que Wendy gosta de escrever. Assim, nessa noite indecisa de fim do Verão, começa um conto a dois autores, com inúmeros capítulos de intrigas e aventuras de sílabas e semântica. Nada mais que isso.

Wendy descobre a verdadeira identidade de Peter. Confia nele e deixa-o levá-la, voando, à sua Terra do Nunca. Peter Pan descobre que Wendy é incrível! Bonita, divertida, inteligente… Mas sabe que não pode estar com ela. Só tem de evitar que ela o descubra. Porque não quer que Wendy deixe de lhe contar historias.

O problema é que Peter Pan tem, na Terra do Nunca, uma outra história muito mais antiga, praticamente uma epopeia! Chama-se Sininho, ou "campanilla" em espanhol. Sininho é linda e perfeita, delicada e elegante, sedutoramente mágica e desvairadamente ciumenta. Trabalha como bartender numa discoteca e está perdidamente apaixonada por Peter. É ela que o faz voar, é ela que o faz cair, é ela que nunca o vai deixar partir.

E não esqueçamos a pequena índia que dança e as sereias semi-nuas que cantam no lago escondido, todas encantadoras amigas do nosso herói, o maior playboy dos contos de fadas. (Depois o Capitão Gancho é que é o mau da fita)!

Continuando...

Nos preâmbulos do tempo Peter Pan consegue, por meras e efémeras intermitências, manter as duas sem se comprometer com nenhuma. Alimenta as histórias fantásticas da Wendy e continua a usar o pó mágico da Sininho. Mas os preâmbulos do tempo vão-se tornando tão enfadonhos e insuportáveis como os dos livros que só começam na página 179. Wendy cansa-se. A Terra do Nunca perdeu a magia e transformou-se numa mentira subtil, angulosa e bipolar. Chama uma nuvem táxi para a trazer de volta.
Sininho zanga-se e lança um ultimato.

E foi aqui que o Walt Disney deixou de escrever a história. Ninguém sabe o que acontece depois do filme acabar… Peter Pan decide crescer, "move on", e deixa a Terra do Nunca para arriscar um encontro real com Wendy, ou fica no seu mundo infinito e eterno, feliz e infeliz com a Sininho?

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