Lo que la natura no da Salamanca no lo presta.

Quer isto dizer que quem nasceu com escassa capacidade cognitiva não vai singrar na Coimbra de Espanha. É mentira. Em Salamanca o que é preciso é espírito de sacrifício para sair a cada noite da semana e bom cálculo mental para aguentar o ritmo. Ser apreciador de pinchos ajuda a comer bem e barato (e com a mão). Garfo e faca são luxúria.
Não se esqueça do guarda-chuva mesmo se estiverem 30 graus porque, já avisava o senhor Luís, o mundo é feito de mudanças. E as trombas de água caem mesmo do céu, normalmente, quando menos se espera.
O primeiro impacto nas lojas de souvenirs pode ser assombroso: estão todas recheadas de caveiras com rãs no cocuruto ósseo. Não, não é nenhum candomblé satírico nem nenhum golpe de marketing avant gard. É uma referencia ao principal monumento da cidade. Enquanto em Portugal andavam a pôr esferas anilares e conchinhas nos Jerónimos, em Salamanca acharam que ficava bem enfiar uma caveira com uma rã na cabeça no meio da fachada da catedral. Mas acho que não foi uma decisão firme e segura. Porque é preciso um telescópio para conseguir ver o detalhe. Eu aliás acho que foi um acto de rebeldia contra o rococó, para provar que não vale a pena tanto trabalho porque ninguém presta atenção pormenorizada às fachadas dos monumentos. Mais ou menos como ousar escrever receitas de cozinha ou palavrões no meio do trabalho de semiótica porque o professor não lê. Correu-lhes mal, alguém deu pela coisa e virou símbolo da cidade. Terror por terror antes os corvos!
Mas Salamanca não assusta ninguém. Tirando os solavancos na moral a que é exposta a comunidade anciã, pelas vestimentas das jovens de hoje em dia. Aaaaah que escândalo! Olhares fogosos de desaprovação e incredulidade face aos vestidos mais curtos que os fatos de banho dos anos 50. Excluindo esses percalços a convivência é pacífica. A comunidade anciã divide a guarida da cidade com os estudantes, que na verdade são os habitantes originais não fosse a Universidade de Salamanca a mais antiga de Espanha e uma das mais antigas do mundo.
Tem de facto o seu quê de Coimbra, mas falta-lhe a Queima das fitas, tem o seu quê de Siena mas faltam-lhe os verdes campos o Duomo e a muralha. Tem uma praça grande onde se pode sentar no chão, como em Siena, e também dá a ideia de ter tantas ou mais sapatarias e cabeleireiros que Barcelona. Meus amigos, Salamanca não é o lugar para os jeans rasgados e os chinelos da praia. Entre enumeras graduações e casamentos, ou o simples prazer de ir passear bem vestido, ou a pessoa põe os seus trapinhos da moda ou não se sente a altura de uma caminhada até a Plaza Mayor. A não ser que esteja numa das várias despedidas de solteiro e solteiras, aí permitem-se vestidos de sevilhanas, coroas na cabeça ou t-shirts rosa choque.
Salamanca é um pequeno mundo algo particular. E vale a pena descobri-lo.


Comentários

i disse…
q coisa mais estranha...

P.S. vens aos santos?
ruitio disse…
ai ai, este é brilhante e lança na mente do leitor atento muitas questões: que raio significaria esse crânio + a rã? E as esferas "anilares" do D Manuel I ?
(na wikipedia há a esfera armilar...)
ruitio disse…
"A célebre rã de Salamanca é um baixo relevo da fachada da Universidade, está pousada sobre um crâneo e, segundo a tradição, garante ao estudante que a descobrir, no meio do delírio exposto na pedra, boa sorte nos estudos e bom casamento."

isto não é para publicares; afinal não é na fachada da catedral e sim na da Universidade;

agora: vistes a rã , não estás a estudar, só podes vir a ter um ... bom casamento!!!!

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