Feliz dia da criança

“Dediquei toda a minha vida a saber pintar como uma criança” Pablo Picasso

Quando somos pequenos queremos ser grandes e quando somos grandes queremos nunca deixar de ser pequenos. Pode ser a eterna insatisfação da natureza humana, pode ser um poema de Pessoa sobre o não sentir que é pensar.
Só eu sei o quanto gostava dos móveis de plástico da minha cozinha e do esparguete à bolonhesa feito com rasgos de um vestido velho da minha mãe. O vestido tinha uns tons avermelhados, para manter a coerência com o prato.
E hoje o que eu dava para chegar a casa e ter a comida feita. Ou poder andar nos baloiços dos playgrounds sem medo de rebentar o assento e aterrar de rabo no chão.
Antes, eu ficava contente por ganhar as corridas ao meu pai. Agora já só acredito na metafísica do chocolate.
Lembro-me de um dia da criança em Faro, nos tempos da escola primária. Não tivemos aulas, fomos rebolar-nos nos insufláveis que puseram no jardim da Alameda. O mesmo local onde a Guida, aquando da celebração do seu 6º ou 7º aniversário, partiu o nariz. Saltitava, distraidamente, na grande área dos baloiços e levou com um no meio da cara. Só se lembra das jorradas de sangue e de um chapéu com flores que a madrinha lhe tinha oferecido. Os pequenos traumas que nos preparam para a vida dos grandes.
Neste saudoso dia da criança o sucedido foi menos doloroso, porém, não menos marcante. Chamei a professora. O que eu lhe queria dizer permanecerá um mistério perdido nas brumas da memória. Ela aproximou-se de mim e, nesse momento, quis o universo que se procede-se um inesquecível incidente. Seria poético poder dizer que foi o bater de asas de uma borboleta que desencadeou tudo mas na verdade foi o aparelho excretor de um pombo que sobrevoava a área. Caiu-lhe o excremento branco acinzentado nos cabelos negros. Lembro-me bem dos detalhes pois, ao ser-me atribuída a culpa pelo incidente, tive que limpar o cabelo da professora com um lenço de papel. Como seu eu tivesse culpa dos pombos apanharem comida do chão! Mas tive pena da professora e então anui a minha culpabilidade e demonstrei a minha redenção. E depois voltei para mais uns saltos no castelo insuflável.
Até hoje sou crente da minha inocência neste episódio. A professora fez birra. E fez muito bem! Não importa quantos anos passem, toda a gente merece um ou outro dia da criança.
(E deviam fazer castelos insufláveis para adultos e baloiços para maiores 20)!

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