Ou então não...

Aparece a imagem do eléctrico na televisão, vai abrindo até se ver o castelo e volta a fechar, focando os carris. O senhor era do Ribatejo mas é a ponte 25 de Abril que enche o ecrã quando dizem que amanhã volta à pátria. Saramago é, muito provavelmente, o único escritor português que os espanhóis conhecem. E Lisboa deve ser a única cidade portuguesa que são capazes de identificar por imagens. Confesso, eu também não tenho nenhuma referencia visual para a Azinhaga. Tinha uma referencia literária, morreu hoje. Ou então não.
Uma vez vi um livro cuja contracapa destacava um alto elogio de José Saramago, ele dizia, referindo-se ao autor, que devia ser proibido alguém tão novo escrever tão bem. O “novo” já ia na casa dos 30 e isso deixou-me descansada. Tenho tempo, pensei. Ainda tenho tempo para um dia ter um comentário dele, tão ou mais eloquente que este, na contracapa do meu livro.
O meu livro, chegando algum dia, já não virá a tempo. Mas sou eu que fico triste, porque estou convencida que o Saramago morreu (ou então não) feliz. Morreu consagrado como escritor, morreu como best seller, morreu ao lado da mulher, na cidade em que escolheu viver e morreu conhecido em Espanha. É uma grande coisa sim senhor! Digam-me lá um escritor espanhol, desde os tempos do Cervantes, que seja conhecido do grande público português?
Pois é por isso, entre outras memórias de um certo convento, muitas vírgulas com um sentido reinventado e um estalar de ironia mais atiçado que o do verniz, que eu acho que ele não morreu.
Se revolvidos 500 anos, ainda todos nos lembramos das “Armas e os barões assinalados/Que da ocidental praia Lusitana/Por mares nunca de antes navegados/Passaram ainda além da Taprobana” a Jangada de pedra não vai ser esquecida só por ser mais humilde que as naus do Vasco. Se acreditamos que para “sermos grandes temos de ser inteiros e pôr quanto somos no mínimo que fazemos”, é inevitável recordar com saudade O Ano da morte de Ricardo Reis. Se "é o sonho que comanda a vida" então se calhar não é Deus e haverá sempre um Evanjelho segundo Jesus Cristo para confirmar a dúvida. Mas não é só a divindade que está em causa, pelo menos enquanto existir um Ensaio sobre a cegueira para questionar a nossa humanidade.
Porque é assim mesmo caros mortais (onde eu me incluo), há pessoas que nunca morrem.

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