Adaptações

É claro que vir viver para Barcelona não acarreta o mesmo tipo de adaptação que ir viver, por exemplo, para o Pólo Norte. Os mais de 20 nomes de tapas que têm aqui são, seguramente, mais fáceis de pronunciar que os mais de 20 nomes que os pólo nórdicos têm para a neve. E depois de uma pessoa se habituar às palavras proibidas – Espanha, região e dialecto – já não há perigo. Em nenhum momento vai aparecer um urso polar. E só neva um dia por ano na cidade, a cada 50 anos. Lentamente o estômago vai-se habituando a almoçar entre as duas e as 3 da tarde, aguentando muitas vezes até às 4. Pelo que nunca tem fome antes das 9 da noite. Os ouvidos acostumam-se à orquestra de idiomas que se escuta nas ruas. Expoente máximo do antagonismo nesta terra tão dos seus e tão de todo o mundo. O cheiro que se sente pelos passeios estreitos do centro e que roça o nauseabundo, assimila-se como um quase charme dos bairros mais antigos. Portanto não incomoda. Já o calor do metro incomoda sempre, mas as viagens valem a pena. Mesmo se for para ir até às praias artificias com areia de pó e águas turvas, por onde livres navegam dejectos de higiene pessoal. A humidade do ar, a ideia de comer cebolas, a mania de festejar o dia do santo de cada pessoa e de insultar o Cristiano Ronaldo com regularidade, tudo acaba por encaixar naturalmente no quotidiano de todo o estrangeiro. E o entusiasmo é tanto que quase se passa a querer ao Barça como se quer ao Benfica.
Só há uma coisa, um detalhe desproporcionalmente grande para o ínfimo que parece ser, a que eu não me consigo habituar. Não me conformo. Não entendo, não assimilo, não acho charme. Acho indecente. Acho que devia ser obrigatório por lei. Eu até me posso adaptar se, de repente, os ursos polares migrarem para o cimo do Tibidabo. Mas não me peçam para viver sem bolas de Berlim, porque isso não é viver, é auto flagelo. Que me perdoe o senhor do coco fresco, que também apregoa muito bem, mas é que se me esvai o sentido de ir à praia se não ouço aquele grito cantado “ooolhááá bola de berliiiim” (e o pastel de amêndoa também)!

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