Nunca confiar num alquimista



Paulo Coelho. Já tinha ouvido falar mais vezes que as estrelas que cintilam nesta noite de Verão. Nunca tinha lido. Até já tinha vergonha.
Abram-se as janelas da alma para o zen e conjuguem-se o yang e o yin na euforia do entendimento de todos entendimentos, ou dê-se o caso de achar que Deus, lendas pessoais e vozes do coração são balelas, é sempre leitura obrigatória. É um estilo particular. Uma recriação moderna do Padre Vieira com camelos em vez de peixes. Às vezes admiro-me com a verdade dos pensamentos. Ás vezes desejo estar outra vez a ler o Diário da Carrie Bradshaw na adolescencia.
Quem é este senhor para vir pregar a voz do mundo na literatura? Mas bolas, aqui e ali tem mesmo razão. Dá que pensar. E assim lia eu, imbuída entre o profundo e o mas isto nunca mais acaba, quando aconteceu o inesperado: um momento hilariante! E, no entanto, é o momento mais dramático da trama. A morte ameaça. O personagem principal e o alquimista foram capturados por um clã do deserto que está em guerra. E ao alquimista parece-lhe bem dar ao chefe do clã todo o dinheiro que o nosso personagem principal havia conseguido juntar durante a sua vida. Não satisfeito com o seu gesto tão pouco altruísta, acrescenta que o personagem principal é que é um alquimista e que se vai transformar em vento. Basta deixá-los vivos durante mais 3 dias. Ora o outro é um ex-pastor e ex-vendedor de cristais e, acreditem ou não, não se sabe transformar em vento. Posto isto, o nosso personagem principal está apavorado. Ao que o sábio alquimista lhe diz que não se entregue ao desespero. O rapaz retorque, não menos sabiamente “mas eu não sei transformar-me em vento”. E eu não sei quanto a vocês mas eu, pessoalmente, se a minha vida dependesse de uma metamorfose do meu ser para ar em movimento, também estaria um bocadinho desesperada. O alquimista não desiste de animá-lo “Não tenhas medo de fracassar”. E o rapaz volta a dar uma resposta iluminada “Eu não tenho medo de fracassar. Apenas não sei transformar-me em vento”. Extremamente bem visto. Uma pessoa pode colocar-se vários objectivos na sua vida e se nunca se conseguir transformar em vento , de certeza que não vai contar como um fracasso. Aqui o alquimista opta pelo state the obvious “Terás de aprender. A tua vida depende disso”. Ai muito obrigada senhor alquimista. Se fosse eu já o tinha esmurrado. Primeiro arrasta-o do oásis onde ele estava rico, feliz e apaixonado e agora aposta a vida dele em troca de um milagre terreno, quer dizer, aéreo.
Mas o NPP (nosso personagem principal) é pacífico e, em vez de esmurrar o alquimista, pergunta-lhe porque é que ele se está a dar ao trabalho de alimentar o seu falcão de estimação. Não vale a pena já que ambos morrerão porque o jovem não se sabe transformar em vento. E aqui o alquimista dá a machadada final, solta a guilhotina, liga a cadeira eléctrica, dizendo algo como “Ah vais morrer tu porque cá eu sei transformar-me em vento!”.
Fim do capítulo.

Comentários

Lolly disse…
Já li vários do Paulo Coelho, mas este, por acaso, não. Só que, tirando o 11 Minutos, eles começaram a parecer-me basicamente a mesma história com personagens diferentes: forças místicas, o poder de acreditar, buhhuhhuhhh bahhhahhhahhh...

Mas fica a moral da história: nunca vás dar um passeio pelo deserto com maluquinhos!

****
Anónimo disse…
eu não gosto dos livros do Paulo Coelho.
e tb não gosto do Paulo Coelho!
(para mim representa a literatura light casada com a esperteza saloia)
beijocas
ruitio
fátima disse…
epá, medo! também me deram esse livro num natal já distante, felizmente, e odiei. coisa mais estapafúrdia, cliché. enfim. ale, acho que até os diarios da carrie são melhores =)

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