Vítima de extravio

Quis agredir a cabeça com a porta e vice versa. Quis gritar até a Sagrada Família estremecer. O que vai acontecer de qualquer maneira, quando o AVE lhe passar por baixo.
Porquê? Porquê? Como é que é possível? E enquanto questionava a minha própria imprudência e estupidez (posto que estava a falar com o meu reflexo no espelho a estupidez ganhou ainda mais veracidade) não pude deixar de recorrer ao choro, para engrandecer este drama megalómano que é perder a identidade. O bilhete de identidade. Estava na mala, como todos os dias. Só que em algum momento se há de ter lançado silenciosamente em queda livre sem que eu me apercebesse. E no dia seguinte já não estava na mala. Calma, respira, eu tenho o passaporte. Contando que o consigo manter localizável nos meus pertences a tragédia reduz-se consideravelmente. Ainda assim.. PORQUÊ? PORQUÊ? COMO É QUE É POSSÍVEL?
Eu tenho um curso superior e um mestrado. O meu nome consta no quadro de honra do liceu, vivo sozinha desde os 18 anos e o meu pai diz que eu sou uma pessoa responsável. E o meu chefe também, aliás, deposita em mim o sucesso de todas as suas novas empreitadas empresariais.
E no entanto sou uma reincidente compulsiva em extravio de objectos/documentos valiosos e guarda chuvas. Dois computadores, um ipod, a carteira, o porta moedas, as chaves de casa, o cartão do telefone, os bilhetes do cinema, o lápis dos olhos (depois do terceiro perdido deixei de comprar lápis da MAC e agora compro no Mercadona) e esta semana o bilhete de identidade. Além de um infindável número de guarda-chuvas ao longo das décadas.
Suspeito que se algum dia tiver um filho a desafortunada criatura se vai encontrar, não poucas vezes, sozinha e perdida em lojas, supermercados, bombas de gasolina, aeroportos e todos os locais onde permitam a entrada a crianças.
O mais chato, além de ter de ir à polícia fazer uma denúncia contra mim mesma para que fique registado que perdi o meu documento de identificação, tirar fotos tipo passe e passar uma manhã na embaixada, é não poder imputar a culpabilidade a terceiros. Tenho de arcar com ela todinha e em exclusivo. Felizmente, existe a palavra extravio para amenizar um pouco este género de incidentes. Eu não perdi o meu bilhete de identidade. O meu bilhete de identidade extraviou-se. Como os guarda-chuvas.
Visto que já recuperei a ironia e a capacidade de satirizar-me a mim própria, busquemos o lado menos cheio da inundação que vai neste copo de água: primeiro, vou sair morena nas fotos tipo passe o que vai suavizar a falta de fotogenia neste género específico de captação imagética; e segundo, vou passar a transportar na mala um cartão do cidadão em vez de um pisa papéis amarelo/ arma de defesa cortante e plastificada. Sim, o bilhete de identidade português resulta assustador para todos os não portugueses que alguma vez se cruzaram com um.
E já esvaída de recursos literários, faço tão somente um único apelo: oh mãe, não te chateies comigo...

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