Vaga

A Europa chamou e Barcelona respondeu. Quando ouvi dizer que iam fazer greve (vaga em catalão) nunca pensei que me encontraria com as portas do metro fechadas e as paragens de autocarro com lugar livre no banco de espera. Correcção, com todo o banco de espera livre. O que significa que tive de ir a pé desde a Sagrada Família até ao centro, onde reside o meu local de trabalho e onde se desenrolou a catarse da revolta.

Ontem, Barcelona estava algures entre Nápoles com as suas montanhas de lixo acumuladas pela via pública, Paris no Mai 68 e o Porto com os super dragões depois de uma derrota em casa contra o Benfica. As lojas estavam fechadas ou abertas a meia haste, a polícia de choque pululava por todos os lados e os bombeiros andavam muito atarefados a apagar carros e contentores em chamas. Esperta que só ela, resolvi sair do trabalho na hora do jogo do FCB, convencida de que estaria toda a gente a ver a partida. Convicção que durou pouco. Foi sair e observar que não havia táxis na paragem (logo agora que tinha convencido a empresa a pagar-me o táxi de volta) e olhar para o lado e ver o povo marchando pela Via Laietana acima. Tentei escapar pela Rambla, impossível, subi até à Plaza Catalunya e aí dei de caras com outra frente reaccionária. Os helicópteros da televisão sobrevoavam a zona como se fossem aterrar nas nossas cabeças e os contentores do lixo queimavam a pucos metros de distancia. Numa tentativa frustrada de mudar de direcção levei com uma onda de gente que vinha a fugir não sei do que. Entretanto, cruzou-se uma mulher que ia gritando “someone stop her!”. Vê-se que lhe acabavam de roubar a mala e ia em perseguição à ladra. Também se vê que ninguém se mexeu para a ajudar.

Eu queria apenas chegar a casa e só me apercebi do possível perigo quando vi um senhor polícia com aquela coisa que mostram nas reportagens de guerra, para ver se há minas no chão. Aí telefonei ao meu pai que, em vez de ficar preocupado, disse, enquanto ouvia as sirenes de fundo, que era “bacana” eu estar a ter esta experiencia. Este é o mesmo pai que, uma vez no Brasil, fez um escândalo à beira mar e obrigou-me a sair da água porque tinha medo que eu me afogasse. Eu estava com água pelo umbigo.
Enfim, se os pais são para todos os dias, a greve, felizmente, foi só ontem!

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