Sopa não!


Há um mês que o meu chefe andava entusiasmadíssimo porque ia cozinhar uma sopa para a família e os amigos. Mas não era uma sopa qualquer, era a escudella! Cada vez que o ouvia a dizer isto, pensava em guerreiros e escudos e catapultas. Mesmo depois de me terem explicado que se tratava de um cozido que levava “de tudo”. Eu, por defeito, não sou grande entusiasta do “de tudo”. É uma espécie de salto de pára-quedas sem saber muito bem se todos os fios do pára-quedas se vão abrir. Chegámos à conclusão que seria como um cozido à portuguesa mas com uma massa especial em forma de caracol gigante. Boa, com o que eu não gosto de cozido à portuguesa.
Receosa e acanhada, lá me apresentei às 3 da tarde para comer a sopa típica do natal catalão.
Qual não foi a minha surpresa quando havia uma série de coisas normais: pão, salada, fuet, queijo, batatas fritas, água! Empanturrei-me de tudo isto o quanto pude e quando começaram a vir as coisas estranhas, supostamente para atirarmos dentro da sopa, já não me restava grande fome.



Foi portanto um prodígio o facto de ter comido a sopa e respectivos aditivos, mais duas fatias de braço de cigano, que apesar de não soar muito a apetitoso é uma delícia de sobremesa, e muitas tangerinas. Realmente, não sei o que nos passou que enfardámos tangerinas como se estivéssemos na presença da mais exclusiva delicatesse frutífera. A única coisa em que não me aventurei foram os pés de porco que são, justamente, pés de porco. Servidos com um líquido que enganou muita gente porque parecia topping de chocolate mas na verdade era vinagre balsâmico.
A escudella, afinal, é uma canja só que com mais variáveis e as tais massas em forma de caracol gigante.
Estava tudo deveras gostoso e foi uma tarde divertida. Aproveitei para praticar o meu catalão com a sobrinha do meu chefe (9 anos). Percebi tudo, a única coisa que ainda agora transcende a minha compreensão é todo aquele entusiasmo que ele tinha com este almoço já que às 8 da manhã (sábado) estava no mercado a fazer a compra, entre as 10 da manhã e as 3 da tarde estava enfiado numa cozinha com um avental à cintura a preparar comida para 35 bocas e, quando finalmente se pôde sentar, já se tinham acabado os aditivos da sopa e as garrafas de vinho. Sobrava a salada mas isso não lhe interessava. Veio mais vinho e de vingança na sobremesa deve ter comido, pelo menos, até ao cotovelo do braço do cigano.
Já a esposa, inglesa, passou o tempo a servir e a atentar na população esfomeada que éramos. Muito solícita, perguntou se toda a gente já tinha sopa. Pergunta de imediato repudiada pelas massas catalãs. “Sopa não! Isto não é sopa, isto é a escudella!”. Pimbas! Que isto aqui a gente não perdoa. Sopa? Sopa é para a Mafalda!
Sem posteriores menções a sopa, o almoço terminou às 6 da tarde, com música ao vivo.
A digestão, creio que nos próximos 2 dias estará concluída.

Comentários

Gustavo Jaime disse…
Tou querendo aprender catalão, mas à distância é quase impossível... criei um fascínio não sei como pelo idioma. O fato é que virou obsessão!

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