Ano Novo, vida velha

No meu primeiro ano da universidade tive a infeliz ideia de fazer um trabalho sobre a semiótica da minissaia. O trabalho até ficou bom e eu gostei de faze-lo. O que tem muito mérito. Não é fácil gostar de fazer um trabalho sobre semiótica. O problema é que o professor de semiótica era monge e a minissaia não estava, propriamente, no seu top 10 de temas de eleição. Se fosse hoje, com mais sensibilidade e escola de vida, faria um trabalho sobre a semiótica da passagem de ano. Ocorreu-me ontem, ao olhar pela janela, que o dia, era só mais um dia sem sol. Que os prédios continuavam todos de pé, o mar no seu sítio aos pés do céu e o céu a olhar-nos desde lá de cima com certa arrogância. Olhei para as árvores. As árvores estão-se pouco marimbando que seja o último dia do ano, desde que na Primavera tenham a sua nova colecção de folhas e flores. Os cães fizeram cocó à noite sem nenhum traje a rigor. E os chineses não comeram 12 uvas, nem 12 passas, nem lançaram flores a Iemanjá, nem andaram todos eufóricos a contar as 12 badaladas em algum aglomerado massivo de gente. Também não tiveram fogo de artifício, toma lá!
Mas enfim, deixemos os chineses onde estão que estão muito bem. O caso é que passagem de ano está cheia de significados, significantes e referentes, palavras chatas que temos de usar num trabalhado de semiótica. Depois também há bares, discotecas e restaurantes que lucram disparates de dinheiro. Mas isso já transcende esta análise. Que na verdade é bem simples: o referente são os vestidos brilhantes e os penteados espampanantes, a festa até de madrugada, as notícias na televisão com o mais bonito de cada celebração. Evidentemente que nestas reportagens não saem os bêbedos que pululam abundantemente por todo o lado, nem as pessoas que se engalfinham nas filas das discotecas, nem os porteiros que gritam com elas.
O significante é esse sentimento de nostalgia do que já passou e desejo de que este ano é que vai ser, este ano é que ganhamos o euro milhões, este ano é que ficamos ricos e famosos, este ano é que casamos, este ano é que vou escrever um email por dia à minha mãe. O significante também é ter de dar beijos e abraços a toda a gente e mandar mensagens e fazer telefonemas. Actuar, enfim, como se fosse a noite mais marcante de todas as nossas vidas.
Por fim, o significado, que se pode resumir em dois pontos:
1 – as únicas coisas que mudam do dia 31 para o dia 1 são a data e os impostos.
2 – vai haver muita gente de ressaca no dia 1.

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