O book

“Espero que goste de Virgílio Ferreira” disse-me o vendedor da única livraria na cidade de Barcelona com livros em português. Uma meia duzia deles. Quase todos do Virgílio com algum Saramago já lido pelo meio. Nao senhor, nao gosto de Virgílio Ferreira. Trauma de infância (nada pessoal).
Chamava-se “ A Apariçao” e foi o único livro que a professora mandou ler e eu nao gostei. Achei enfadonho, sem sal. Claro que está bem escrito. A Constituiçao da República também está bem escrita e até foca temas que me afectam directamente, mas eu nunca a li nem a tal aspiro.
De ânimo cabisbaixo, acompanhando os joelhos que roçavam o chao para alcançar a prateleira da literatura portuguesa (versao original), encontrei um achado - “O Cais das Merendas” de Lídia Rorerrê, como a chamam por estas bandas.
Há muito tempo que a queria para meu disfrute literário. Temos o Algarve como denominador comum e uma vez li-lhe um poema. Foi na sua visita oficial ao meu liceu, há mais anos atrás do que os que eu gostaria.
Como até já era hora do almoço, as merendas vieram expressamente para dentro da minha mala e desde entao têm-me acompanhando em cada viagem de autocarro, metro, comboio ou toalha de praia.
Confesso que nao é exactamente como eu esperava: uma algarviada de estória, com tipiquices humorísticas e personagens a la “Os Maias” versao Serra de Monchique.
É diferente... Parece que só as páginas avançam. A acçao está sempre estanque, numa merenda que já nao se chama merenda. Chama-se “o party”. E os intervenientes chamam-se Zulmira, Valentina ou Aldegundes e discutem se um canapé é um pedaço de pao com uma rodela de tomate e um palito, um tipo de almofada com folho ou um cadeirao. E depois há momentos bonitos como este “Valentina Palas punha-se a assoar o nariz com o ímpeto de quem lava a loiça ou desentope canos”. E eu rio-me. Penso quao de verídico e quao de imaginaçao haverá neste merenda, perdao, neste party, de gentes do campo que de repente começam a usurpar de palavras em inglês e em francês porque acham que é chique, que está in e que fica sempre bem.
Penso, imagino, ouço o sotaque do sul a dizer “canapé”.
E continuo a ler, com um sorriso a morder os lábios.

Comentários

Rui Coelho disse…
privilegiada, no liceu de portimão o máximo a que podiamos aspirar de visitas oficiais era a dos nossos pais quando nos portávamos mal. Quer dizer, um dia fomos a uma visita de estudo a Alvor, talvez fosse oficial. Lembro-me que estava muito entusiasmado e até levei uma malinha.

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