It's my party you'll eat cheese if I want to...

Ontem foi o aniversário de uma amiga norueguesa que vive em Barelona. Talvez a conheçam de vista do catálogo da Desigual, da Custo Barcelona ou de uma qualquer revista de moda onde os seus traços exóticos e figura esguia são presença constante. Sim, ela é modelo. Super-modelo. Daquelas que achamos que não existem. Que é photoshop. Não. A única coisa que as suas fotos escondem e a luz do dia reafirma, é que ela tem mais de 1m80.
Sair com ela pode ser frustrante. Uma pessoa sente-se baixa e gorda. Mas a companhia compensa. Não é a típica modelo superficial e tonta. Não tem uma atitude prepotente e interessa-se mais por trabalhar e aprender idiomas que por comprar roupas e sapatos de marca.
É uma pessoa adorável. Tem apenas uma pequena peculiaridade. É que na Noruega existe um culto massificado a um queijo de cabra com côr de caramelo (vulgo côr de cocó de pombo). É um queijo meio salgado meio doce. E os noruegueses consideram-no perfeito para todas as mesas, todas as horas e todas as comidas. Saboreiam-no com orgulho patriótico! Como nós com os pastéis de Belém. Com a ligeira nuance de que os pastéis de Belém são mesmo bons e queijo Norueguês é intragável.
Quando há uns anos lá estive, depois de passar duas semanas a esquivar estoicamente o dito cujo duas a três vezes por dia, ofereceram-me uma generosa porção de queijo para trazer de volta a Portugal. A boa educação obrigou-me a aceitar. Comecei por tentar impingi-lo ao meu núcleo familiar. Seguiram-se os demais familiares, a vizinha, as amigas. Ninguém. Ninguém se quis delongar em mais de uma dentada naquele pedaço de cultura e tradição nórdica que terminou num balde do lixo ibérico, sem o apreço que merecia. O que comprova que a minha descrição de “intragável” não é uma mera opinião pessoal se não o resultado de uma observação directa numa amostra vasta e diversificada. Que se voltou a repetir ontem, na casa da minha amiga norueguesa. Como já não é caso para cerimónia, quando ela sacou o queijo ao lado da nutella e da compota para pôr nos waffles, eu disse-lhe logo que não gostava. Cumplicidade que partilhei a sussurros com o seu namorado, que sempre que vão visitar a família dela tem que escapar ao queijo todos os dias. Discretamente, para não ferir susceptibilidades. “É maravilhoso mas eu fico-me pelo salmão” dizia ele. Os restantes convidados tiveram de comer e calar. Como dizer à anfitriã e aniversariante que não se gosta do queijo do país dela que ela, tão amavelmente, acaba oferecer? Uma ainda tentou barrar nutella no waffle, como quem não quer a coisa, mas foi rapidamente interceptada pela minha amiga “não, nao, prova o queijo, é um queijo norueguês blá blá blá...”.
Abdicar da nutella por aquele queijo é um sacrilégio. Mas teve que ser.
Ontem, ninguém voltou para casa sem um (des)gosto da Noruega.

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