Maldito gato branco

Avistei de longe um forrobodó antitético sobre os exames nacionais de Português do 12º ano. Senti-me identificada com quem crítica a suposta ausência de savoir faire na hora de identificar o sujeito de uma frase. Mas não me senti menos identificada com quem argumenta que saíram obras que a matriz se esqueceu de avisar.
No meu 12º ano, com um domínio quase paranormal de tudo o que formasse palavras, ou assim pensava eu, despenhei-me num 16,2 no exame nacional de Português. Dito assim não parece grande coisa, eu sei. Mas foi um hecatombe para quem vinha de uma maré alta de vintes e queria entrar no curso de Ciências da Comunicação com a média mais alta do país e um dia ser escritora. E tudo por causa do gato branco. Alguém achou que a coisa mais importante de “Os Maias” era o gato branco. Não era o retrato social de uma época, não era o desenvolvimento dos personagens, não eram os sinais ocultos de presságio nem as ironias cómicas dos diálogos. Tão perfeitas. Não, não, não. A pergunta de interpretação tinha, impreterivelmente, que ser sobre o gato branco. Eu não gosto de gatos. E eu não acertei nos critérios de correcção que, por certo, posteriormente foram corrigidos.
Acabo de vislumbrar um dos exames deste ano. Discordo da escolha múltipla, principalmente num exame de português, but then again, quem sou eu se não aquela que não soube interpretar o gato branco. No exame nacional de história consegui, e sou ciente de que nunca mais conseguirei, escrever com sucesso duas páginas de folha de teste sobre um quadro de de Piet Mondrian – abstraccionismo geométrico.



Mas o raio do gato escapou-se-me. Enfim…
O poema de Álvaro Campos não era propriamente A tabacaria, nem eclodia em anástrofes. Metia a infância e a felicidade de ser naive, sempre presente em Pessoa, misturada com sinestesias e ausências de sentidos. Era um poema rico em ideias mas como já não pedem um comentário global a cegas não havia espaço para divagações. Agora dividem a interpretação em perguntas directas como setas. Depois perguntavam sobre Ricardo Reis. Quem não tenha tido vontade de abanar furiosamente o livro a ver se fluía o rio à beira do qual ele se sentava com a Lídia, não esteve atento nas aulas.
Também me dei conta de que já não está lá o resumo, o que é um alívio para toda a gente. Em conclusão, achei que o exame nacional de português está menos criativo e mais pragmático, menos literário e mais matemático. A escolha múltipla meu Deus!
É claro que tudo é mais fácil quando não nos toca fazê-lo, mas aqui vou ser ni-ni. Nem é justo ridicularizar os alunos que tenham tido dificuldades, nem é aceitável dizer que o exame estava fora de alcance. Não era escancaradamente papinha feita, não, mas também não envolvia gatos brancos!

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