Overdose

Não sabia que era a última vez que a ia ver. Não pensei nisso. Afinal já era uma sorte conseguir vê-la naquela noite. Durante 30 minutos a dúvida assombrou a Bela Vista. Mas a brisa que sopra o dia para o mar lá a trouxe até nós. Um vulto desengonçado, tropeçando nos saltos, demasiado altos para a reduzida taxa de sobriedade. O copo de vinho na mão, sempre certo, como o Big Ben tem o relógio. A soberba extensão no cabelo perfilava entre os holofotes e avistava-se desde as últimas filas. As tatuagens gritavam o desequilíbrio dos pés à cabeça.
Indiferentes, como bons reles mortais fascinados com a rock star, aplaudimos e gritámos de histeria. Ela estava ali. Bêbeda mas viva. Ela estava li. Estava mesmo? Cada minuto menos. Cada minuto mais: desvanecida. E outro gole. Não sei se para resgatar a voz se para afogá-la de vez. Não dizia coisa com coisa. A letra escapava-se lhe da boca. Falava do marido e da prisão. Mas o povo queria ouvir a Valery, não o Blake. Um por um os milhares de pessoas foram perdendo a paciência. Quando ela caiu no meio do palco já não havia escapatória ao escárnio geral, uma galhofa sem piedade. Que desastre.
“They try to meake me go to rehab and I say...” mas a multidao não a deixava dizer que não. Cantavam “Go go go go!” em vez de “no, no, no”.Riam-se. Tive pena. Hoje tenho mais. Toda a gente deveria ter cantado “go, go,go” e mais alto. Muito mais alto. Muitas mais vezes. Talvez tivesse dado no mesmo. Talvez a tivéssemos de volta outra noite.
Jazz na minha memória aquele pedido de desculpas após a sua entrada pouco triunfal “I’m sorry I’m late”. Com os olhos marcados de excessos de eyeliner, entre outras substâncias.
Chegou 30 minutos atrasada. Partiu muitos anos antes da hora marcada.
Foi a primeira e última vez que vi a Amy Winehouse.
Agora as luzes do palco já se apagaram.
E desta vez não vai haver "mais uma".

Comentários

Rui Coelho disse…
Sempre achei que ela era tão frágil que uma rajada mais forte acabaria por levá-la. E não fui vê-la ao rock in rio para guardar a ideia da melhor voz feminina dos anos zero, em vez de ficar com a imagem da decadência. Esperada mas triste, triste notícia.

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