15 anos

Não haveria nenhuma razão para eu me lembrar de como foi o meu dia há exactamente 10 anos atrás. Seria um dia mais, perdido no eixo da memória. Em vez disso, lembro-me de estar no meu quarto quando o meu pai apareceu de rompante pelo corredor, exaltado. Que viesse ver as imagens em directo de um avião a chocar contra um edifício em Nova York. Eu fui. Fomos todos. A mesma imagem repetia-se sem parar, intercalada com imagens em directo, de pânico, de desespero, de gritos e fumo negro. Os rodapés corriam 1000 informações à hora. As mesmas que o mundo inteiro estava a tentar descodificar enquanto centenas de pessoas tentavam não morrer e outras centenas tentavam salvá-las. Era um acidente sem precedentes, praticamente inexplicável. Então, por entre as chamas das imagens em directo, vimos outro avião. Outro avião a chocar brutalmente com o edifício ao lado. Como um míssil. E enquanto eu pensava na impossibilidade da lei das probabilidades de dois aviões chocarem quase ao mesmo tempo com dois edifícios um ao lado do outro, o meu pai disse algo como “Isto não é um acidente”. E a minha mãe concordou com ele. Mas eu, na ingenuidade dos meus 15 anos, não podia conceber a ideia de que uma coisa assim acontecesse premeditadamente. Não podia ser. Era um acidente, uma fatalidade.
Sim. Lembro-me de estar ali de pé, em frente à televisão, e pensar isso mesmo.
Saí de casa. Tinha a tarde livre, um amigo que fazia anos, um dia de sol e calor fora da janela. A primeira coisa que o aniversariante me disse foi “Viste os aviões em Nova York?”. “Sim!”. Não sei que outros comentários tecemos mas sei que achava que já tinha visto tudo. Que já tinha acontecido. Que já tinha acabado.
Mal sabia eu que 11 de Setembro nunca mais ia ser o dia de anos de alguém se não o dia do maior ataque terrorista da história. Que era o eclodir de uma guerra. Que era a coisa mais impressionante que eu iria ver durante duas décadas e meia de vida.
Não sabia que não eram dois edifícios quaisquer, não sabia que havia mais aviões sequestrados, não sabia que o World Trade Center se ia desfazer em pó, não sabia que havia redes de terrorismo organizadas e fanáticas ao ponto de assassinar indiscriminadamente 3000 pessoas. Não sabia que morreriam 3000 pessoas.
Não era um acidente.
E tudo o que eu sabia era irrelevante. O meu livro de história ia mudar.
Porque o mundo, o meu e o nosso, mudariam para sempre.
Hoje entendo o 11 de Setembro.
Mas a indignação, o choque e a comoção são os mesmos de quando tinha 15 anos e estava em pé em frente à televisão da sala.

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