A Duquesa de Alba

Há em Espanha uma senhora que dança sevilhanas do altos dos seus 85 anos. Uma senhora a quem a idade deteriorou a fala mas concedeu mais títulos nobres que à Rainha de Inglaterra, a qual teria de lhe fazer reverência. Uma senhora que tem uma afro branca e sangue do mais azul que pode haver.
Consta que poderia cruzar toda a Espanha pisando apenas os seus terrenos, tantas são as propriedades que possui. E quem diz propriedades diz palácios.
O meu primeiro encontro com esta senhora nos media espanhóis foi algo como “what the hell…?”. Quem é esta? Porque é que tem tanto protagonismo? Porque é que fala assim? E mudei de canal, virei a página e ignorei-a porque já tinha bastante com a família real.
Vinda de países onde a monarquia está ida há séculos, literalmente, a ideia de alguém que é rei por nascimento não me convence. Parece-me uma parafernália inútil, retrógrada e, principalmente, cara. Sim, agora que pago impostos neste semi-reino tenho direito a uma opinião válida. E a minha é de que já que estamos em crise e o governo não se coíbe nada em diminuir salários e despedir funcionários, bem que podia despedir uns quantos membros da família real, ou privatizá-la. Não sei. Qualquer coisa que fizesse sentido e fosse verdadeiramente útil para o povo. Que para as representações e as relações internacionais há embaixadores e ministros.
Mas a Duquesa de Alba não está dentro da família real. Está imediatamente abaixo. E como tal faz o que bem lhe apetece. Assim, viúva de primeiro e segundo casamentos, decidiu contrair matrimónio hoje, com um senhor 20 anos mais novo e contra a vontade dos seus 6 filhos. Sabem lá o sururu que gira por aqui desde que a boda foi anunciada. Não se fala noutra coisa. E as pessoas, muitas pessoas, amontoaram-se à porta da igreja desde as 6 da manhã, para partilhar este terceiro enlace da Duquesa. Como se fosse a Lady Di. Isto a mim já me parecia a cereja em cima da aberração. Nem sequer o especial sobre o vestido de noiva me cativou.
O único que comungava com a excitação geral era a pergunta: a senhora acredita mesmo que este cavalheiro está apaixonado por ela? Porque acreditem, é difícil de acreditar.
And then it hit me. A mulher tem 85 anos, é mais nobre que os nobres, mais rica que os ricos, já enterrou 2 maridos, todos os seus filhos já têm filhos. Está pois no limiar da vida. Viver num palácio sozinha não deve ser divertido. E morrer num palácio sozinha menos. Se calhar ela não é só um show off ou uma rebelde sem causa.
Se calhar tem uma causa, a solidão, o medo da morte. Eu tenho 25 anos e tenho medo de morrer. E mais de morrer só. De momento, não me vou casar por causa disso, porém entendo que ela o tenha feito.
Continuo a achar um desperdício de espaço público toda a cobertura mediática que esta personagem recebe.
Mas afinal, até pode ser que simpatize com a Duquesa de Alba.

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